A British American Tobacco (BAT) anunciou um plano de reestruturação profunda que resultará no corte de aproximadamente 9 mil postos de trabalho em suas operações globais. A medida, que exclui o mercado dos Estados Unidos, envolve a demissão direta de 5.500 funcionários e a transferência de cerca de 3.500 funções para parceiros terceirizados, como a Accenture. O objetivo central é a eficiência operacional, com a empresa projetando uma economia anualizada de 793 milhões de dólares até 2028.

Sob a liderança do CEO brasileiro Tadeu Marroco, a companhia tenta contornar um cenário de estagnação financeira e pressão dos investidores. O movimento aponta para uma tentativa de se desvencilhar de uma estrutura legada pesada para ganhar agilidade, utilizando inteligência artificial e digitalização como pilares centrais de sua nova organização interna.

O declínio do modelo tradicional

O setor de tabaco enfrenta um declínio estrutural irreversível, com a própria BAT projetando uma queda de 2,5% nos volumes de vendas de cigarros convencionais para este ano. Esse movimento não é isolado, mas reflete uma mudança de hábito global que força as gigantes do setor a buscarem alternativas de receita, como vaporizadores e sachês de nicotina.

A transição, contudo, tem sido marcada por obstáculos regulatórios significativos. A dificuldade em obter aprovações para novos produtos nos Estados Unidos, combinada com a concorrência de produtos ilegais, tem minado a capacidade da empresa de compensar a perda de volume no tabaco tradicional. A leitura é que a BAT está presa entre a necessidade de manter o fluxo de caixa do cigarro e a urgência de escalar novas categorias de risco reduzido.

A mecânica da reestruturação

A aposta em IA e terceirização indica uma mudança na lógica de alocação de capital. Ao transferir processos para empresas como a Accenture, a BAT busca converter custos fixos de folha de pagamento em despesas variáveis, aumentando sua resiliência diante de oscilações de mercado. O uso de IA, segundo a companhia, visa automatizar tarefas administrativas que hoje consomem recursos preciosos.

Esse modelo de "agilidade tecnológica" é comum em indústrias maduras tentando evitar a obsolescência. O desafio reside em manter a disciplina de custos sem comprometer a capacidade de inovação e distribuição de novos produtos, especialmente quando a Philip Morris International mantém uma vantagem competitiva clara em categorias de nova geração.

Tensões globais e stakeholders

Os impactos dessa reestruturação são sentidos em múltiplos níveis. Para os trabalhadores, o processo representa uma transição incerta. Para os reguladores, a postura da BAT reflete a pressão que empresas do setor exercem para flexibilizar normas de novos produtos, alegando que o rigor excessivo apenas abre espaço para o comércio ilícito.

No Brasil, onde a BAT possui presença relevante através da Souza Cruz, o mercado observa com atenção o impacto dessas diretrizes globais. A empresa enfrenta o dilema de manter sua relevância em mercados emergentes, onde o custo de vida elevado empurra consumidores para marcas de baixo custo, reduzindo as margens de lucro.

Perspectivas futuras

A eficácia desse corte de 9 mil vagas depende da capacidade da BAT em executar sua estratégia digital sem perder o controle de suas operações principais. Resta saber se a economia projetada será suficiente para aplacar a insatisfação dos acionistas, que têm visto um desempenho abaixo do esperado para a companhia.

O mercado continuará monitorando se a reestruturação trará a agilidade prometida ou se a empresa continuará perdendo terreno para rivais mais ágeis. A transição para uma empresa orientada a tecnologia em um setor rigidamente regulado é um movimento de alto risco e incerteza.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney