A Califórnia, quarta maior economia do mundo e o estado mais biodiverso dos EUA, está no meio de um ambicioso experimento: provar que crescimento econômico e conservação ambiental não são mutuamente excludentes. A iniciativa, conhecida como "30x30", visa conservar 30% de suas terras e águas costeiras até 2030.
O esforço é parte de uma estratégia maior para atingir a neutralidade de carbono até 2045. Segundo reportagem da revista Outside Online, o estado se tornou um laboratório para o capitalismo verde, testando em tempo real se uma economia de ponta pode se descarbonizar sem sacrificar sua prosperidade. A questão central é se o modelo californiano será um farol para o mundo ou uma história de advertência.
O equilíbrio delicado
Os avanços iniciais são notáveis. A Califórnia já atingiu sua meta de energia limpa para 2030, com dois terços de sua matriz elétrica vindo de fontes renováveis. Em apenas três anos, o estado adicionou cerca de 2,5 milhões de acres a suas áreas de conservação, elevando o total de 24% para 26,1% do território terrestre e de 16% para 21,9% das águas costeiras.
Parte do sucesso reside em políticas que buscam sinergia, não conflito. O Plano de Conservação de Energia Renovável do Deserto, por exemplo, incentivou a instalação de projetos solares e eólicos em áreas de menor impacto ambiental, acelerando licenciamentos e, segundo um estudo, aumentando em 28% o desenvolvimento de energia limpa na região, ao mesmo tempo que protegia habitats sensíveis. A leitura é que o estado aprendeu a transformar um jogo de soma zero em uma negociação estratégica.
Os desafios da próxima etapa
O caminho à frente, no entanto, é mais íngreme. Para cumprir a meta 30x30, será preciso conservar quase 800 mil acres por ano até o fim da década, uma escala descrita como "desanimadora" por autoridades locais. Adicionalmente, a transição energética exige uma construção de infraestrutura "sem precedentes", segundo a organização The Nature Conservancy. A continuidade política também é uma incógnita, com o fim do mandato do governador Gavin Newsom e a possibilidade de um governo federal hostil às pautas climáticas.
Internamente, o consenso também é frágil. Críticos apontam que as políticas ambientais agravam a crise de habitação e o custo de vida no estado. Por outro lado, ambientalistas se preocupam com recentes flexibilizações na lei de avaliação de impacto ambiental (CEQA), feitas para acelerar projetos de energia e moradia. O movimento sugere uma tensão crescente entre a urgência climática e a burocracia regulatória, forçando até mesmo a comunidade ambientalista a, nas palavras de um gestor público, "aprender a dizer sim".
A experiência da Califórnia é um microcosmo do dilema global. Suas políticas já influenciaram outros países, como a China em seus mandatos para veículos elétricos, e provaram que é possível avançar mesmo com a oposição de Washington. A questão que permanece em aberto, e que o mundo acompanha atentamente, é se o estado conseguirá manter-se como um motor de prosperidade enquanto se descarboniza, ou se os custos e as complexidades de sua transição se tornarão um exemplo dos limites do idealismo verde.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Outside Online




