Esqueça a imagem de campos verdes a perder de vista. O cultivo de Cannabis sativa recém-autorizado no Brasil se assemelha mais a um laboratório farmacêutico do que a uma fazenda. Cada planta será monitorada, sua genética rastreada e sua composição química controlada sob o olhar atento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A liberação, que ocorre seis meses após a aprovação do marco regulatório, é um passo técnico, mas de enorme significado simbólico e econômico. Encerra-se, ao menos no papel, a era em que a pesquisa e a produção de medicamentos à base de cannabis no país dependiam exclusivamente da importação de insumos de nações com regulação mais consolidada, como Canadá e Holanda.

Da importação à estufa

A permissão para que farmacêuticas e centros de pesquisa produzam o próprio insumo farmacêutico ativo (IFA) é a peça que faltava para a criação de uma cadeia produtiva nacional. O objetivo é claro: reduzir a dependência externa, baratear custos a longo prazo e ampliar a oferta de tratamentos para doenças como epilepsia, Parkinson e dor crônica.

Contudo, a euforia inicial esbarra na realidade dos custos. Segundo a reportagem do Money Times, as exigências da Anvisa são comparáveis às de mercados altamente regulados, o que demanda investimentos vultosos em infraestrutura, segurança e controle de qualidade. A consequência imediata é que uma queda nos preços para o consumidor final não deve ocorrer no curto prazo. Primeiro, é preciso viabilizar a produção.

O labirinto regulatório

O novo marco legal é o mapa, não o território. A consolidação do mercado dependerá da velocidade com que os primeiros projetos forem efetivamente autorizados e da articulação entre empresas, pesquisadores e os próprios órgãos reguladores. A lei cria o caminho, mas a burocracia dita o ritmo da caminhada.

Paralelamente, movimentos como a regulamentação da atuação de farmacêuticos em todas as etapas pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) indicam a profissionalização do setor. É um ecossistema complexo se formando, onde a ciência tenta avançar nos espaços abertos pela regulação.

Para as empresas, é um novo e complexo mercado a ser desbravado. Para os reguladores, um teste de capacidade fiscalizatória. Mas para as famílias que dependem dos extratos para tratamento, a notícia chega com uma mistura de esperança e ceticismo. A semente está em solo legal; resta saber em quanto tempo o fruto chegará a quem mais precisa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times