A Canva, uma das plataformas de design mais utilizadas no mundo, estabeleceu dois critérios fundamentais para seu processo de contratação: curiosidade inata e a disposição para ir além das responsabilidades imediatas. Segundo Jennie Rogerson, diretora de pessoas da companhia, essas características formam a base necessária para que colaboradores naveguem com sucesso em um ambiente de trabalho cada vez mais impactado pela inteligência artificial. A executiva compartilhou essa visão durante o Charter’s New Employer Brand Summit, realizado recentemente em Nova York.

Rogerson argumenta que, enquanto a tecnologia automatiza tarefas repetitivas, a capacidade humana de questionar e assumir a responsabilidade por resultados coletivos torna-se o verdadeiro diferencial competitivo. A tese da empresa é que, em um cenário de mudanças tecnológicas aceleradas, a adaptabilidade de um indivíduo é mais valiosa do que o domínio isolado de uma ferramenta específica, que pode se tornar obsoleta em pouco tempo.

A curiosidade como base da resiliência

A curiosidade, descrita por Rogerson como um pré-requisito básico, não se limita ao interesse intelectual, mas funciona como uma ferramenta estratégica de carreira. Especialistas do setor de carreiras, como a coach Caroline Hickey, corroboram essa visão, destacando que a curiosidade é o que permite aos profissionais manterem o controle sobre suas trajetórias. Em um mundo dominado por algoritmos e IA, a capacidade de perguntar "por quê?" transforma falhas e feedbacks negativos em oportunidades de aprendizado e pivô.

Essa mentalidade permite que o profissional não apenas aceite a disrupção digital, mas a utilize como alavanca. Ao investigar a causa raiz de um problema, o colaborador curioso desenvolve uma compreensão profunda do negócio, algo que a IA, por sua natureza reativa e programada, ainda não consegue emular com a mesma perspicácia humana. O valor está no processo de questionamento, que precede a solução técnica.

O diferencial da proatividade e da autonomia

O segundo pilar destacado pela Canva é a habilidade de ir além do escopo definido. Melissa Swift, CEO da consultoria Anthrome Insight e autora de obras sobre gestão em ambientes de mudança, enfatiza que a IA executa o que é programado, enquanto humanos possuem a flexibilidade mental para expandir o impacto do seu trabalho. Quando um colaborador assume a responsabilidade pelos resultados, em vez de focar apenas na conclusão de tarefas, a dinâmica de entrega muda drasticamente.

Essa postura é vital porque as definições de cargos e funções estão em constante mutação devido ao ritmo da tecnologia. Profissionais que se limitam a executar o que lhes é atribuído correm o risco de se tornarem dispensáveis, enquanto aqueles que buscam agregar valor extra — seja por meio de novas certificações ou pela aplicação de soft skills — tornam-se indispensáveis para a estrutura organizacional da empresa.

Implicações para o mercado e gestão

A mudança de foco na contratação da Canva reflete uma tendência mais ampla de gestão de talentos. Reguladores e líderes de RH observam que a dependência excessiva de habilidades puramente técnicas está criando um gargalo, onde a força de trabalho não consegue acompanhar a velocidade das inovações. Para o mercado brasileiro, onde a digitalização é acelerada, essa lição é particularmente relevante: empresas que priorizam o perfil comportamental tendem a ser mais resilientes a choques externos.

Além disso, essa abordagem exige que as lideranças criem ambientes que recompensem a iniciativa. Se a estrutura de uma organização pune o erro ou desencoraja a autonomia, a curiosidade e a proatividade morrem rapidamente, independentemente do talento contratado. O desafio, portanto, não é apenas buscar essas qualidades, mas mantê-las vivas dentro da cultura corporativa.

O futuro das competências humanas

O que permanece incerto é como as métricas de avaliação de desempenho se adaptarão para medir essas competências menos tangíveis. Avaliar a "curiosidade" ou a "proatividade" de forma objetiva continua sendo um desafio para o RH, que historicamente se baseia em entregas quantificáveis e indicadores de produtividade direta.

Observar como empresas de tecnologia de alto crescimento como a Canva medirão o sucesso desses traços a longo prazo poderá oferecer um novo modelo para o mercado global. A transição para uma economia impulsionada por IA exigirá, mais do que nunca, que as empresas reavaliem o que, de fato, constitui o valor humano no trabalho.

A busca por esse equilíbrio entre a eficiência da máquina e a intuição humana define a nova fronteira da gestão de talentos. Enquanto os algoritmos avançam, a pergunta sobre o que torna um profissional essencial permanece no centro do debate estratégico das organizações.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company