A noite em Caracas já não é mais o palco do medo. Há três anos, Miguel Dao, um negociador de sequestros com décadas de experiência, não participa de uma única negociação. A cidade, outrora conhecida como a capital mundial dos assassinatos, agora ostenta uma calmaria que impressiona visitantes e moradores. Assaltos de rua tornaram-se raros, sequestros, tanto os de longa duração quanto os relâmpagos, praticamente desapareceram. Dao, crítico do regime, admite a “conquista sob qualquer critério” na redução da criminalidade, mas a dúvida sobre sua durabilidade paira no ar, como um fantasma da violência que um dia dominou a metrópole.
A nova sensação de segurança em Caracas, e em outras regiões da Venezuela, representa uma das mais notáveis reviravoltas na segurança pública da América Latina. Essa transformação, porém, difere significativamente de modelos como o de El Salvador, onde o presidente Nayib Bukele aposta no encarceramento em massa. Na Venezuela, os fatores que contribuíram para a melhora dos indicadores são mais sombrios. Investigadores das Nações Unidas apontam para uma campanha sangrenta, onde esquadrões policiais, ignorando o sistema judicial, executaram milhares de jovens pobres, o grupo demográfico mais propenso a se envolver com gangues criminosas. A migração em massa, que levou milhões de venezuelanos a deixarem o país, também contribuiu, diluindo a força de organizações criminosas.
O Eco do Medo Passado
Recordar Caracas de uma década atrás é evocar um passado onde o medo era um companheiro constante. Conversas sobre sequestros permeavam encontros sociais, e sair à noite tornava-se um ato de coragem. Assaltos fatais, apelidados de “Morte por BlackBerry”, eram tão comuns que se tornaram um fenômeno social. Ao cobrir o necrotério da cidade, o jornalista testemunhou uma realidade brutal: mais de 16 mil assassinatos por ano, um número que superava em três vezes o de civis mortos pela violência no Iraque em plena guerra. As denúncias públicas sobre essa violência geraram reações do então presidente Hugo Chávez, forçando o jornalista e sua família a buscar refúgio. Em 2011, ao deixar o país, a violência era parte intrínseca da vida cotidiana. O retorno, anos depois, revelou uma cidade transformada, mais segura que metrópoles como Bogotá ou São Paulo, com passeios guiados voltando a apresentar a cidade aos seus próprios moradores e a vida noturna ressurgindo em áreas antes consideradas perigosas.
A Paz Silenciosa e Brutal
Um dos aspectos mais intrigantes dessa nova realidade é o silêncio que a cerca. Poucos habitantes comuns, e mesmo líderes venezuelanos, celebram abertamente a queda da criminalidade. Muitos parecem mais focados na sobrevivência econômica, em um país ainda marcado por um colapso econômico persistente. Diferentemente de El Salvador, as autoridades venezuelanas não promovem incessantemente a redução da criminalidade. Criminologistas, como Luiz Izquiel, atribuem essa ambivalência aos métodos brutais empregados. Enquanto Bukele se orgulha de suas prisões em massa, a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez dificilmente celebraria a morte de milhares de compatriotas em nome da paz. A estratégia, iniciada com as Operações de Libertação do Povo por Nicolás Maduro, baseou-se em execuções extrajudiciais, justificadas como “resistência à autoridade”. Investigações da ONU apontam para ao menos 6.856 mortes em 18 meses entre 2018 e 2019, muitas vezes com cenas de crime manipuladas para simular resistência.
Implicações Internacionais e Familiares
A campanha de segurança venezuelana atraiu a atenção do Tribunal Penal Internacional (TPI), que abriu sua própria investigação sobre possíveis crimes contra a humanidade. Embora a Venezuela tenha se retirado do estatuto do tribunal em 2013, a investigação prossegue, com a corte focando em crimes que teriam ocorrido enquanto o país ainda era signatário. A situação gerou reações complexas, com alguns setores do governo dos Estados Unidos apoiando medidas para enfraquecer o TPI, especialmente após a emissão de mandados contra líderes israelenses e a possibilidade de a corte investigar ações militares americanas. Especialistas em direito, contudo, afirmam que a jurisdição do tribunal sobre o caso venezuelano pode persistir. Enquanto isso, familiares de vítimas buscam justiça. Millanyela Fernández relata que seu filho, Richard Jesús Briceño, foi morto por uma unidade policial em 2021, apesar de não ter antecedentes criminais. Ela descreve o momento em que ele foi forçado a se ajoelhar e alvejado, um testemunho pungente da violência estatal que, ironicamente, trouxe uma nova forma de “paz” à cidade.
A Fragilidade da Tranquilidade
A vice-presidente Delcy Rodríguez mencionou recentemente uma taxa de homicídios de 3 mortes por 100 mil habitantes em 2025, um número que colocaria o país entre os menos violentos das Américas. Contudo, a falta de estatísticas abrangentes e a escassez de informações confiáveis levantam dúvidas sobre a veracidade desses dados. A própria flexibilização de postos de controle policiais, anunciada recentemente, sugere que a estratégia de segurança pode estar em transição. Fatores econômicos, como a adoção informal do dólar e a redução da circulação de dinheiro em espécie, também contribuíram para a diminuição de crimes de rua. Alguns moradores percebem essa calma como um alívio temporário, uma aparência de segurança onde o controle territorial e a extorsão foram institucionalizados pelas próprias forças de segurança. A era das gangues de rua pode ter acabado, mas o controle estatal, com suas próprias sombras, parece ter se consolidado.
A segurança em Caracas é um mosaico complexo, onde a ausência de crimes de rua convive com a memória de execuções extrajudiciais. Resta saber se essa paz, conquistada a um custo humano tão elevado, poderá sustentar-se sem a ameaça constante de mais violência, seja ela estatal ou criminal. A cidade respira mais aliviada, mas a que preço?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





