Carga tributária sobre imóveis na Espanha chega a 62% do valor — e trava o mercado

A pressão fiscal que incide sobre a habitação na Espanha atingiu níveis críticos, podendo superar 62% do preço de aquisição de um imóvel quando contabilizados todos os tributos ao longo de seu ciclo econômico. Segundo o estudo 'Análise econômica da fiscalidade da habitação na Espanha', realizado pela Fedea em conjunto com a Cambra de la Propietat Urbana de Barcelona, o sistema atual atua como um desincentivo severo tanto para a oferta quanto para a demanda habitacional.

O documento argumenta que a fragmentação normativa entre as diferentes administrações espanholas cria um ambiente de insegurança jurídica e ineficiência. Embora a carga tributária seja um fator central, os autores do relatório ponderam que ela não é o único entrave, citando problemas estruturais como a escassez de solo, a lentidão na gestão de licenças e a baixa produtividade do setor de construção.

O peso da burocracia e dos impostos

A análise detalha como a sucessão de impostos — desde a aquisição até a transmissão e a posse — onera o proprietário e o investidor. A disparidade regional é um dos pontos mais sensíveis, com o Imposto sobre Transmisiones Patrimoniales (ITP) variando drasticamente entre 6% em regiões como Madri e Navarra e até 20% em territórios como a Catalunha e as Baleares. Essa discrepância não apenas encarece o acesso à moradia usada, mas também impõe barreiras à mobilidade laboral dos cidadãos.

Especialistas apontam que a estrutura atual do Imposto sobre Sucesiones y Donaciones e as normas de planejamento urbano obsoletas contribuem para um cenário de estagnação. A falta de uma definição homogênea sobre o que constitui um 'grande proprietário' adiciona mais uma camada de incerteza que afasta o capital privado do mercado de aluguel a longo prazo.

Mecanismos de distorção no setor

O mecanismo de tributação vigente, longe de ser um instrumento de equilíbrio, funciona como um freio regulatório. A proposta do estudo para mitigar esses efeitos inclui a implementação de um IVA de 0% para a promoção de habitações destinadas ao aluguel acessível e a redução drástica de taxas para a primeira aquisição. A ideia é racionalizar a carga para que o investimento em eficiência energética e reabilitação deixe de ser punido tributariamente.

Além disso, os economistas sugerem a eliminação do Imposto sobre Actos Jurídicos Documentados (AJD) e a unificação das tarifas de sucessão, com faixas progressivas entre 5% e 15%. A intenção é substituir critérios baseados em parentesco por uma lógica mais clara e previsível, reduzindo o efeito cascata que atualmente penaliza o mercado residencial.

Implicações para o ecossistema imobiliário

Para reguladores, o desafio é equilibrar a arrecadação com a necessidade urgente de aumentar o parque habitacional acessível. A fragmentação normativa é vista como um 'castigo regulatório' que impede a criação de um mercado eficiente, afetando diretamente a classe média, que vê o custo de vida subir enquanto a oferta permanece estagnada.

Para o ecossistema de investimentos, a incerteza jurídica representa o maior custo oculto. Se a Espanha deseja atrair novos players e fomentar o aluguel, a simplificação do arcabouço fiscal será inevitável. A comparação com outros países da OCDE reforça a percepção de que o país ocupa uma posição de destaque negativo na pressão fiscal sobre o setor imobiliário.

Perspectivas e incertezas

O debate permanece aberto sobre como conciliar as competências regionais com a necessidade de uma política habitacional nacional coesa. A eficácia das propostas de desoneração fiscal dependerá diretamente da vontade política das administrações em ceder margem de manobra em prol da fluidez do mercado.

O que se observa agora é um setor que clama por previsibilidade. A questão fundamental para os próximos anos será saber se o governo conseguirá transformar essas recomendações técnicas em reformas legislativas capazes de destravar o imobilismo que hoje define o mercado imobiliário espanhol.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España