O cerco de Washington à influência chinesa na indústria automotiva está se fechando. Um comitê do Senado americano aprovou um projeto de lei para banir fabricantes com mais de 15% de capital chinês, enquanto outra medida mira a eliminação de componentes e softwares "made in China" dos carros vendidos nos EUA, com prazos a partir do próximo ano.

A iniciativa, que já força movimentos como a saída da Polestar do mercado americano, tem um objetivo claro: a soberania da cadeia produtiva. Contudo, como aponta uma reportagem do site The Drive, o custo dessa independência tecnológica pode ser alto e recair diretamente sobre o consumidor, em um mercado onde o preço médio de um carro novo já beira os US$ 50 mil.

O custo da dissociação

A substituição de fornecedores chineses, dominantes em componentes eletrônicos, não é trivial nem barata. A matéria cita o exemplo da Eagle Wireless, uma startup de Ohio que tenta ocupar esse espaço. Seus módulos, porém, custam de 5% a 15% a mais que os equivalentes chineses. A disparidade é ainda mais gritante em sistemas complexos de assistência ao motorista (ADAS). Um ex-executivo de Detroit relatou ao The Drive que seu "queixo caiu" ao ver a diferença de preço para um sistema produzido fora da China.

O movimento sugere que a conta da dissociação tecnológica será, invariavelmente, repassada ao preço final dos veículos. Para o consumidor americano, isso significa uma pressão adicional sobre os custos, que já saltaram significativamente desde o início da década, em um cenário de inflação e gargalos pós-pandemia.

O labirinto da cadeia de suprimentos

O desafio é mais profundo do que parece. A complexidade da cadeia de suprimentos moderna torna a tarefa de "expurgar" a China quase impossível no curto prazo. A Ford, por exemplo, buscou autorização para continuar importando o Lincoln Nautilus, montado na China. Ao mesmo tempo, a montadora iniciou a produção de baterias em Michigan usando tecnologia licenciada da chinesa CATL. A legislação proposta visa coibir também esses licenciamentos, complicando ainda mais a operação de gigantes estabelecidas.

Montadoras mais novas, como a Rivian, acreditam ter mais agilidade para trocar de fornecedores, mas o desafio é sistêmico e expõe a profunda interdependência construída nas últimas décadas. A dissociação forçada cria um dilema para toda a indústria: absorver os custos, repassá-los ao consumidor ou arriscar a perda de competitividade.

A tentativa de reconfigurar a espinha dorsal da indústria automotiva é um experimento geopolítico e industrial de grande escala. O resultado final e o verdadeiro custo dessa manobra, no entanto, permanecem uma incógnita, com o consumidor na posição mais vulnerável da equação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Drive