A sabedoria popular, muitas vezes subestimada, ganha respaldo científico: as cascas, sementes e talos de frutas e vegetais, partes frequentemente descartadas no preparo de alimentos, são, de fato, mais nutritivas do que a polpa que consumimos. Uma nova pesquisa confirma que esses componentes, que acabam no lixo, concentram uma quantidade de fibras dietéticas superior à das partes mais apreciadas. Essa constatação sugere que cozinheiros e chefs de cozinha, ao descartarem essas partes, estão inadvertidamente jogando fora uma porção considerável de nutrientes essenciais.
A recomendação dos cientistas é clara: adotar uma abordagem de "do caule à ponta" (root to tip) na culinária. Isso implica em incorporar cascas de abóbora, cascas de melancia e até mesmo os talos de pimentão em pratos, visando melhorar a ingestão de fibras pela população. "Precisamos realmente mudar nossos hábitos de compra para adquirir frutas e vegetais inteiros e, em seguida, usar todas as partes desses alimentos em nossos pratos", afirma Rachel Gibson, pesquisadora da King’s College London.
Um tesouro nutricional no lixo
A equipe de Gibson conduziu um estudo detalhado, analisando o teor de fibras em 12 tipos de frutas e vegetais comuns, incluindo abóbora, kiwi, melancia, brócolis e pimentão. A metodologia envolveu a medição precisa das fibras tanto nas porções usualmente consumidas quanto nas partes que normalmente seriam descartadas. Os resultados foram notáveis: em 10 dos 12 produtos analisados, as partes desperdiçadas apresentaram maior concentração de fibras. Um exemplo emblemático é a abóbora: suas sementes e casca, juntas, contabilizaram 9,25 gramas de fibra por 100 gramas, um contraste gritante com os 2 gramas de fibra por 100 gramas encontrados na polpa da abóbora. Da mesma forma, a casca e o miolo de um abacaxi demonstraram conter 450% mais fibra do que a polpa.
Embora algumas dessas partes possam apresentar uma textura mais fibrosa e desafiadora para o consumo direto, os pesquisadores apontam que técnicas culinárias como o cozimento, o processamento em purês ou o uso em sopas e saladas podem torná-las mais palatáveis e integrá-las facilmente à dieta. A dificuldade em mastigar não deve ser um impeditivo para o aproveitamento nutricional desses componentes.
A crise silenciosa da baixa ingestão de fibras
Os dados sobre o consumo de fibras no Reino Unido são alarmantes: apenas 4% dos adultos britânicos atingem a recomendação mínima diária de 30 gramas de fibra. A média de ingestão se situa em torno da metade desse valor, o que acende um alerta sobre as consequências para a saúde pública. A baixa ingestão de fibras está associada a um maior risco de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, doenças cardíacas e certos tipos de câncer, além de problemas digestivos.
Gibson sugere que os resultados desta pesquisa podem servir como um guia prático para a indústria de alimentos e para serviços de catering. Ao incorporar mais partes de frutas e vegetais que normalmente seriam desperdiçadas, é possível não apenas aumentar o teor de fibras nas refeições, mas também reduzir significativamente o desperdício alimentar e, consequentemente, os custos operacionais em cozinhas comerciais. A iniciativa de um cardápio "do caule à ponta" implementada no refeitório da King’s College London em maio de 2025, com pratos como ensopado de abóbora integral e salada de melancia com casca em conserva, já demonstra o potencial dessa abordagem.
Sustentabilidade e resiliência alimentar
Além dos benefícios nutricionais diretos, o aproveitamento integral de frutas e vegetais contribui para a sustentabilidade do sistema alimentar. Em um cenário de crescentes desafios climáticos e instabilidade global, a maximização do uso de cada alimento colhido fortalece a resiliência do sistema. "Tudo o que tiramos da terra que podemos comer, devemos comer", enfatiza Gibson. Essa filosofia de aproveitamento total é um passo crucial para um futuro alimentar mais sustentável e seguro.
Christian Reynolds, da City St George’s University of London, descreve a pesquisa como uma "investigação empolgante", mas ressalta um ponto importante: o desperdício de carne e laticínios representa um impacto ambiental mais significativo. Embora a redução do desperdício de frutas e vegetais seja uma parte valiosa da solução, ela não é a única estratégia necessária para mitigar os efeitos ambientais da produção de alimentos. A abordagem "do caule à ponta" deve ser vista como um componente de um esforço multifacetado para a sustentabilidade alimentar.
As descobertas abrem um leque de possibilidades para a inovação culinária e para a conscientização do consumidor. A questão que permanece é como traduzir esses achados científicos em práticas cotidianas e políticas públicas eficazes. A transição para um sistema alimentar mais eficiente e nutritivo exigirá a colaboração entre pesquisadores, indústria, chefs e consumidores, transformando o que antes era considerado lixo em um valioso recurso nutricional e ambiental.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · New Scientist





