No auge do inverno moscovita, onde as temperaturas frequentemente mergulham abaixo de zero, uma cena surreal dominava o centro da capital soviética. Milhares de pessoas nadavam ao ar livre, mergulhadas em águas aquecidas, enquanto densas nuvens de vapor subiam e ocultavam as silhuetas dos banhistas sob o céu nevado. Para os observadores estrangeiros, a imagem parecia saída de um delírio de ficção científica, mas para os locais, era apenas a rotina na piscina Moskva. O que poucos ali recordavam, entre um mergulho e outro, era que aquele círculo fumegante ocupava o epicentro de uma das disputas ideológicas mais profundas da arquitetura moderna.
O triunfo da demolição
A história desse terreno começa com a Catedral de Cristo Salvador, erguida como uma promessa do Czar Alexandre I após a retirada de Napoleão em 1812. O templo, uma obra monumental que levou décadas para ser concluída, representava a união inabalável entre a monarquia, a Igreja Ortodoxa e o poder imperial russo. Contudo, após a Revolução de 1917, a nova ordem bolchevique via naqueles símbolos do passado um obstáculo à construção da utopia comunista. Em 1931, por ordem direta de Joseph Stalin, a catedral foi reduzida a escombros, abrindo caminho para o projeto mais ambicioso — e delirante — da arquitetura soviética.
A utopia de aço que nunca existiu
O plano de Stalin era substituir a fé religiosa pela apoteose do Estado: o Palácio dos Sóviets. Projetado para ter 415 metros de altura e coroado por uma estátua de Lenin de cem metros, o edifício deveria ser o mais alto do planeta, superando qualquer arranha-céu ocidental. O arquiteto Boris Iofan dedicou anos ao design de auditórios colossais e espaços glorificadores. No entanto, a realidade técnica e geopolítica frustrou o sonho. O solo instável, a infiltração de água e a invasão alemã de 1941 interromperam a obra, transformando o local em um cráter lamacento e, mais tarde, em uma fonte de aço para a indústria bélica.
Do poder estatal ao lazer coletivo
Após a guerra, o regime de Nikita Jrushchov optou por uma solução pragmática e inusitada para o imenso vazio deixado pela fundação do palácio inacabado. Em 1960, o local foi inaugurado como a piscina Moskva, a maior do seu tipo na União Soviética. O espaço, com 130 metros de diâmetro, funcionava como uma metáfora viva da transição soviética: o que deveria ser um templo de adoração estatal tornou-se, ironicamente, um centro de lazer público. A piscina funcionou por décadas, ignorando o passado religioso e político que jazia sob seus azulejos.
Memórias soterradas sob o ouro
Hoje, a paisagem é novamente dominada pelas cúpulas douradas de uma réplica da Catedral de Cristo Salvador, reconstruída após a queda da União Soviética. A transformação cíclica do local levanta questões sobre a permanência dos monumentos e a fragilidade das narrativas históricas impostas pelo poder. O terreno permanece como uma cicatriz visível de um século de rupturas, onde cada estrato arquitetônico tenta apagar o anterior. Resta saber se a atual catedral será capaz de ancorar a memória coletiva ou se, como seus antecessores, é apenas um capítulo transitório em uma Moscou que insiste em se reinventar sobre as cinzas de seus próprios mitos.
Com reportagem de Xataka
Source · Xataka





