A gestora de investimentos Cathie Wood, à frente da ARK Invest, reforçou sua aposta na SpaceX ao adquirir cerca de US$ 7 milhões em ações da empresa aeroespacial de Elon Musk. O movimento ocorre em um momento de correção para os papéis, que recuaram 29% em relação à máxima histórica registrada no mês passado, logo após o IPO da companhia. Esta é a terceira vez que a gestora aproveita a volatilidade para aumentar sua posição desde a estreia da empresa na bolsa.

Para viabilizar o novo aporte, a ARK Invest optou por vender aproximadamente 570 mil ações da Alibaba. A decisão marca uma nova rotação na carteira da gestora, que havia retomado o investimento na gigante chinesa de e-commerce apenas no ano passado, após um longo período de ausência motivado pelas pressões regulatórias impostas pelo governo de Pequim em 2021.

A tese por trás da aposta aeroespacial

A estratégia de Wood baseia-se em uma projeção ambiciosa de longo prazo, na qual a SpaceX poderia alcançar um valor de mercado de US$ 3,1 trilhões até 2030. A tese central da ARK Invest sustenta que a redução drástica nos custos de lançamento de carga útil — que caíram cerca de 95% desde 2008 — é apenas o início de uma transformação estrutural no setor de infraestrutura tecnológica.

O otimismo da gestora é impulsionado pela visão de que o crescimento da IA exigirá capacidades computacionais que superam a infraestrutura terrestre disponível. Nesse cenário, o desenvolvimento de data centers orbitais surge como uma solução viável para atender à demanda global por processamento de dados, transformando a SpaceX em uma peça fundamental da economia digital futura.

Mecanismos de alocação e riscos operacionais

A movimentação da ARK reflete um modelo de gestão de portfólio que prioriza a concentração em ativos considerados disruptivos, mesmo diante de críticas técnicas significativas. Enquanto Wood defende a viabilidade econômica dos data centers espaciais, especialistas do setor, como o professor Boon Ooi, do Rensselaer Polytechnic Institute, apontam desafios colossais para a viabilização de tais projetos, citando a necessidade de matrizes energéticas complexas e pesadas para o ambiente espacial.

Além das barreiras físicas, a alocação de Wood ignora as preocupações manifestadas por outros nomes de peso do mercado, como Masayoshi Son, do Softbank. O executivo defende que o foco deve permanecer na infraestrutura terrestre, dado que a viabilização comercial de data centers no espaço ainda demandaria décadas de investimento e desenvolvimento tecnológico que superam as estimativas atuais de mercado.

Implicações para o ecossistema de investimentos

A preferência de Wood pela SpaceX evidencia uma convergência entre suas convicções políticas e financeiras. A gestora tem defendido publicamente a atuação de Elon Musk, inclusive em sua recente passagem pelo Departamento de Eficiência Governamental dos EUA, onde o empresário liderou cortes orçamentários e reduções drásticas no quadro de funcionários do governo federal.

Para investidores, o movimento sinaliza um descolamento crescente entre a valorização de empresas de tecnologia americanas de alto risco e a exposição a mercados emergentes como o chinês. A saída do Alibaba, mesmo após a reabertura de posição no ano passado, sugere que, para a ARK, a incerteza regulatória na China permanece sendo um fator de risco superior à volatilidade inerente aos projetos de exploração espacial de Musk.

Perguntas sem resposta no horizonte

A trajetória das ações da SpaceX nos próximos trimestres será um teste definitivo para a tese de Wood. Se o mercado continuar a precificar o ativo com base no valor atual de US$ 149 por ação, a pressão sobre os fundos da ARK para justificar a concentração de capital em um único emissor deve aumentar significativamente.

O desenrolar desta estratégia também levanta questionamentos sobre a sustentabilidade do modelo de data centers orbitais como tese de investimento. Observar se a empresa conseguirá manter a redução de custos prometida será essencial para entender se a aposta da ARK é um movimento visionário ou uma alocação excessivamente otimista em um setor de capital intensivo.

A movimentação de Cathie Wood reitera sua postura de longo prazo, mesmo frente a quedas acentuadas de preço no curto prazo. A transição de capital do varejo chinês para a infraestrutura espacial de Musk não é apenas uma troca de ativos, mas uma reafirmação de que, para a ARK, o futuro da computação reside fora da Terra. A eficácia dessa visão, contudo, ainda depende de avanços técnicos que permanecem no campo teórico.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune