A inovação em saúde, frequentemente direcionada a quem pode pagar mais, raramente atinge as populações mais vulneráveis. Sarah London, CEO da Centene, a maior seguradora Medicaid dos Estados Unidos, expressou essa preocupação em um recente evento da Fortune. Segundo ela, a maior parte do capital de risco no setor de saúde flui para áreas com maior potencial de retorno financeiro, deixando de lado o público do Medicaid, que representa uma parcela significativa de comunidades historicamente subatendidas. London, que lidera uma empresa com 26 milhões de membros em 29 estados, destacou que esses pacientes estão entre os mais pobres e doentes das comunidades onde a Centene opera. Ela assumiu o cargo há quatro anos com a convicção de que a convergência entre tecnologia e saúde poderia ser um vetor para expandir o acesso a cuidados médicos para aqueles que tradicionalmente ficam por último na fila.

O Potencial da IA Além da Automação

London vê na inteligência artificial (IA) uma oportunidade transformadora para o setor de saúde, mas ressalta que seu uso atual está majoritariamente focado em "casos de uso inflacionários". Isso significa que a maior parte dos investimentos em IA visa aumentar a receita dentro de um sistema baseado em honorários por serviço. Embora a automação de tarefas administrativas e o processamento de pagamentos sejam valiosos, essa abordagem, na visão da CEO, desperdiça o potencial da IA para "quebrar o modelo atual" e democratizar o acesso aos cuidados médicos. A executiva acredita que a IA pode ser uma ferramenta poderosa para empoderar tanto os pacientes quanto os profissionais de saúde comunitários, especialmente em regiões conhecidas como "desertos médicos", onde o acesso a hospitais e clínicas é limitado.

IA como Ferramenta de Empoderamento e Eficiência

A aplicação da IA em "desertos médicos" poderia capacitar agentes de saúde comunitários a realizar triagens iniciais para problemas não agudos, aproximando o atendimento diretamente das comunidades. "Isso devolve o cuidado comunitário para a comunidade e o cuidado individual para as mãos dos pacientes", afirmou London. Além disso, a IA pode conceder aos pacientes maior autonomia na gestão de sua própria saúde. Embora o uso de ferramentas como o ChatGPT para obter informações médicas ainda seja incipiente e deva ser feito com cautela, London sugere que, quando utilizada corretamente, a IA pode tornar os indivíduos mais conscientes sobre suas condições de saúde. Essa maior agência e capacidade de tomar decisões preliminares sobre o próprio cuidado são vistas como cruciais para "dobrar a curva de custos" na saúde, redirecionando recursos para o atendimento direto em vez de despesas administrativas.

Desafios e Próximos Passos

A implementação dessas visões, no entanto, ainda é um trabalho em andamento. Atualmente, a Centene utiliza IA principalmente em comunicações administrativas com seus membros. O objetivo de longo prazo é desenvolver ferramentas interativas que permitam aos pacientes dar os primeiros passos no gerenciamento de sua saúde de forma independente. London também enfatizou a importância da economia de custos administrativos: "Cada dólar que podemos economizar na administração da saúde, podemos aplicar em benefícios". Essa estratégia visa não apenas otimizar a operação da seguradora, mas também garantir que os recursos economizados se traduzam em melhores serviços e coberturas para os membros mais necessitados. A jornada para que a IA cumpra seu potencial de democratização na saúde, especialmente para populações vulneráveis, está apenas começando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune