Arturo Gonzalo Aizpiri, CEO da Enagás, elevou o tom sobre a política energética europeia durante um seminário organizado pela APIE e pela UIMP em Santander. Segundo o executivo, o continente precisa de uma "aposta nítida" e rápida na adoção do hidrogênio verde para enfrentar a instabilidade dos mercados de hidrocarbonetos, utilizando a China como modelo de implementação industrial acelerada.
O executivo atribuiu à Europa uma nota 7,5 em termos de progresso histórico, mas alertou que o desempenho atual é insuficiente diante dos desafios geopolíticos. A leitura aqui é que a região ainda negligencia o potencial das moléculas renováveis, um componente que ele considera vital para a resiliência e autonomia do bloco frente a choques externos recorrentes.
O modelo chinês como contraponto
Gonzalo destacou que o avanço chinês na infraestrutura de hidrogênio verde não é casual, mas fruto de um programa nacional deliberado. Para a Enagás, a Europa corre o risco de perder competitividade ao tratar a transição energética apenas como uma meta de descarbonização, sem a devida urgência estratégica que a segurança de suprimento exige.
O executivo argumenta que a transição deve ser encarada como uma resposta direta às turbulências globais. Enquanto a Europa debate regulamentações, outros mercados estão consolidando cadeias produtivas que poderão definir a hegemonia energética das próximas décadas, tornando a lentidão europeia um risco estrutural para o setor industrial.
Impacto e volatilidade dos preços
O sistema gasista espanhol tem servido como um escudo contra a volatilidade, mas o custo dessas crises é elevado. Gonzalo citou um impacto de 500 milhões de euros diários para a Europa e um sobrecusto de 1 bilhão de euros apenas na fatura de gás da Espanha, evidenciando a fragilidade da dependência atual.
A normalização dos preços de mercado é esperada apenas para o final de 2027 ou início de 2028, com a expectativa de retorno aos níveis anteriores de 30 euros por megavatio. Contudo, o executivo reforçou que essa projeção é volátil e depende da estabilidade em regiões produtoras, o que torna a produção autóctone de energia renovável uma necessidade inadiável.
Desinvestimento e regulação
Sobre a estratégia da Enagás, Gonzalo explicou a desinversão na filial Enagás Renovable, onde a empresa reduziu sua participação a 20%. A decisão foi impulsionada por resoluções da CNMC que restringem a atuação de operadoras de infraestrutura no mercado de gases renováveis, forçando a companhia a assumir um papel puramente financeiro.
Embora a empresa pretenda manter a participação minoritária por um tempo, a estratégia de longo prazo é a saída total. Esse movimento reflete uma tensão regulatória: a necessidade de separar o controle de infraestrutura da produção de energia, garantindo que o mercado de hidrogênio se desenvolva com concorrência plena, sem que as operadoras dominem todos os elos da cadeia.
Perspectivas para o hidrogênio verde
O horizonte de paridade de preços entre o hidrogênio verde e o fóssil é previsto para o final desta década, com a meta de atingir quatro euros por quilograma. A questão central que permanece é se o mercado europeu terá fôlego regulatório e financeiro para sustentar essa transição antes que novos choques geopolíticos elevem ainda mais os custos de oportunidade.
A capacidade da Europa de integrar sua infraestrutura gasista com as novas fontes renováveis determinará sua relevância na economia global. Observar como os Estados-membros alinharão suas políticas industriais será o próximo passo crítico para validar a "aposta nítida" que a liderança da Enagás reivindica hoje.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





