A Confederação Espanhola de Organizaciones Empresariales (CEOE) oficializou nesta quinta-feira sua adesão ao Observatório do Custo dos Serviços de Operação, um movimento que sinaliza um descontentamento crescente com a estrutura tarifária do setor elétrico na Espanha. Segundo dados do último relatório do observatório, o custo acumulado dos serviços de operação do sistema atingiu 2,68 bilhões de euros em 2026, representando um incremento de 34% em comparação ao mesmo período de 2025. A análise aponta que, atualmente, um em cada seis euros pagos pelos consumidores na fatura de energia destina-se exclusivamente à manutenção da operação, e não ao consumo real de eletricidade no mercado atacadista.
O impacto direto é sentido na parcela variável da conta, onde os consumidores enfrentam um sobrecusto médio de 22,59 euros por MWh desde o início do ano. O cenário, descrito como preocupante pelo setor produtivo, coloca em xeque a viabilidade de processos de eletrificação e descarbonização em curso, ao elevar artificialmente o preço final da energia para a indústria e famílias. A entrada da CEOE no observatório confere um peso político inédito à demanda por reformas estruturais na regulação elétrica espanhola.
A falha na sinalização de preços
A principal queixa do setor empresarial reside na distorção causada pelos mecanismos de operação reforçada, implementados após o blecaute ocorrido em 28 de abril de 2025. O Observatório argumenta que a atual configuração desses custos não apenas encarece a eletricidade, mas envia sinais de mercado equivocados, prejudicando o planejamento de investimentos industriais de longo prazo.
Para as empresas, a falta de clareza sobre como esses valores são calculados e repassados ao consumidor final impede uma gestão de custos eficiente. A exigência de transparência não é meramente contábil, mas uma tentativa de reverter uma tendência onde o custo operacional do sistema passou a ser uma carga desproporcional na estrutura de preços, em vez de um custo acessório de manutenção da rede.
O papel da regulação e da CNMC
Diante da pressão, a coalizão de associações, que inclui nomes como Aelec e AEGE, exige que a Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência (CNMC) intensifique sua fiscalização. A demanda central é por uma supervisão mais rigorosa dos mecanismos de operação, com a publicação detalhada e acessível da evolução desses custos, permitindo que o mercado compreenda a origem exata dos encargos.
Além da fiscalização, o grupo defende uma mudança na forma como esses serviços são financiados. A proposta é que parte desses custos seja absorvida por taxas reguladas do sistema, evitando que o ônus total recaia sobre a fatura direta dos consumidores, especialmente a indústria eletrointensiva, que é altamente sensível a variações tarifárias.
Tensões na transição energética
A preocupação das entidades reflete um dilema mais amplo vivido por economias europeias: como garantir a segurança do suprimento elétrico sem inviabilizar a transição para fontes renováveis. A descarbonização exige investimentos pesados e uma rede estável, mas os custos associados a essa estabilidade estão se tornando um entrave à competitividade industrial, criando um conflito entre metas ambientais e viabilidade econômica.
O paralelo com outros mercados europeus sugere que a Espanha enfrenta um desafio de governança técnica. Se o custo da operação do sistema continuar subindo em um ritmo superior ao da energia, o país corre o risco de ver sua vantagem competitiva em energia limpa ser anulada por ineficiências regulatórias, forçando a indústria a buscar alternativas ou reduzir a produção.
Perspectivas de ajuste regulatório
O que permanece incerto é a disposição do governo e da CNMC em alterar o desenho atual dos encargos do sistema. A segurança do suprimento elétrico, após os eventos de 2025, tornou-se um tema de segurança nacional, o que pode limitar a margem de manobra dos reguladores para reduzir custos que são tecnicamente justificados como necessários para a estabilidade da rede.
O mercado deverá observar se a pressão da CEOE resultará em uma revisão dos mecanismos de operação ou se o governo manterá a estrutura atual sob o argumento de precaução. A evolução do custo por MWh nos próximos trimestres servirá como termômetro para a viabilidade das propostas do observatório.
A adesão da CEOE transforma um debate técnico de nicho em uma pauta central da agenda econômica espanhola. Resta saber se a pressão política será suficiente para forçar uma reestruturação nas taxas ou se os custos operacionais continuarão a ser um componente inflacionário permanente na conta de luz.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





