Líderes de grandes empresas nos Estados Unidos afirmam que os agentes de inteligência artificial (IA) começam a gerar resultados concretos, mas a tecnologia ainda não está remodelando fundamentalmente seus negócios. Uma pesquisa divulgada pela KPMG US com 400 CEOs de grandes companhias sediadas nos EUA indica que, embora cerca de 40% relatem melhorias significativas em eficiência ou crescimento com o uso de agentes de IA, e uma parcela semelhante reporte efeitos moderados em aplicações específicas, apenas 9% descrevem a tecnologia como "transformacional" para suas organizações no momento.

Tim Walsh, CEO e presidente da KPMG US, destacou em entrevista que existe uma lacuna entre a simples utilização da IA e o complexo trabalho de reformular as operações de uma empresa para aproveitar ao máximo a tecnologia. "Não é algo que se instala e funciona imediatamente", ressaltou Walsh, projetando que a percepção de transformação deve aumentar nos próximos seis a doze meses. A incorporação da IA também está alterando as necessidades das empresas em relação aos seus trabalhadores. A pesquisa sinaliza que os CEOs não veem a tecnologia apenas como uma ferramenta para reduzir custos de pessoal. Cerca de nove em cada dez executivos esperam aumentar o quadro de funcionários nos próximos três anos, uma perspectiva de contratação mais otimista do que a apresentada por alguns líderes em meses recentes.

O Desafio da Implementação Profunda

A pesquisa da KPMG US aponta para um cenário onde os benefícios da IA são percebidos, mas a sua integração profunda no tecido empresarial ainda é um processo árduo. A declaração de Tim Walsh de que "não é plug and play" encapsula a complexidade envolvida. Empresas que buscam extrair o máximo valor da IA precisam ir além da adoção de ferramentas específicas; elas devem, em muitos casos, reavaliar e redesenhar processos de negócios estabelecidos há décadas, muitos dos quais não foram atualizados para a era digital. A preparação dos dados em um formato utilizável e a automação de fluxos de trabalho com a ajuda de engenheiros especializados são passos cruciais, mas que exigem investimento e planejamento estratégico.

O ceticismo em relação ao caráter "transformacional" da IA, mesmo entre líderes que reportam ganhos de eficiência, sugere que a tecnologia ainda é vista mais como uma otimização de tarefas existentes do que como um catalisador para novos modelos de negócio ou para uma redefinição fundamental de como as empresas operam. A expectativa de que essa percepção mude nos próximos meses indica uma corrida contra o tempo para que as companhias se adaptem, evitando o risco de ficarem para trás.

Requalificação e Contratação: O Novo Cenário de RH

Um dos achados mais notáveis da pesquisa é a expectativa de aumento de contratações, contradizendo o receio de que a IA levaria a cortes generalizados de pessoal. Ao invés disso, a tecnologia está remodelando as habilidades necessárias. Os líderes identificaram lacunas de competências nos trabalhadores, a necessidade de treinar equipes para usar ferramentas de IA e a atração e retenção de talentos como desafios significativos. Aproximadamente oito em cada dez CEOs afirmaram que a IA os levou a reconsiderar o desenvolvimento de seus funcionários, e 75% indicaram que a integração de sistemas de IA os fez reavaliar as habilidades exigidas para cargos de nível de entrada.

A KPMG, por exemplo, tem ajustado suas próprias expectativas para trabalhadores em início de carreira, pilotando programas focados em habilidades "centradas no ser humano", como pensamento crítico, resolução de problemas, comunicação e liderança de equipe. A colaboração entre humanos e IA é vista como o futuro, com 86% dos CEOs prevendo ajustes em empregos, carreiras e estruturas de equipe nos próximos dois a cinco anos. A busca por engenheiros e cientistas de dados, como mencionado por Walsh, reforça a ideia de que a IA não substitui, mas complementa e exige novas competências.

Riscos e Prioridade de Investimento em IA

O risco de disrupção empresarial nos próximos três anos, segundo sete em cada dez líderes, deriva da "falta de acesso e avanço confiáveis em IA". Isso pode abranger desde interrupções por falhas em modelos de IA até limitações de poder computacional e infraestrutura. Essa preocupação, aliada à necessidade de não ficar para trás, explica o porquê de muitas empresas planejar um investimento robusto na tecnologia. Mais de 80% dos CEOs consideram a IA uma prioridade máxima de investimento para os próximos três anos, com cerca de dois terços destinando pelo menos 10% de seus orçamentos de capital para IA no próximo ano.

Essa alocação de recursos sublinha a percepção de que, embora a transformação completa seja um desafio, a ausência de investimento em IA representa um risco ainda maior. A pesquisa sugere que as empresas estão apostando na tecnologia não apenas para otimizar operações atuais, mas como um componente essencial para a sua sobrevivência e crescimento futuro em um cenário cada vez mais digital e automatizado.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Colaboração Humano-IA

Ainda persistem questões sobre a velocidade e a profundidade com que a IA realmente transformará as estruturas corporativas. A pesquisa da KPMG, embora otimista quanto ao aumento de contratações, revela um caminho complexo para a integração eficaz, que passa pela requalificação da força de trabalho e pela reestruturação de processos. A capacidade das empresas de navegar por essas mudanças, superando as lacunas de habilidades e as limitações de infraestrutura, determinará o quão "transformacional" a IA se tornará em médio e longo prazo.

Observar como as empresas que hoje reportam ganhos pontuais conseguirão escalar essas implementações e integrá-las de forma holística será crucial. A evolução dos agentes de IA, a maturidade das infraestruturas de computação e a adaptação contínua das forças de trabalho moldarão o futuro da colaboração humano-IA e, consequentemente, a paisagem competitiva das indústrias. A jornada da adoção da IA está longe de terminar, e os próximos anos serão decisivos para definir seu real impacto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider