A Bienal de Veneza, um dos eventos de arte mais prestigiados do mundo, tornou-se palco de uma reflexão profunda sobre o conflito no Leste Europeu. Em meio às tensões geopolíticas que cercam o evento, a instalação "Security Guarantees", da artista ucraniana Zhanna Kadyrova, destaca-se como uma das intervenções mais significativas da 61ª edição. A peça central, "The Origami Deer" (2019), uma escultura de concreto pesado que simula a delicadeza do papel, foi instalada estrategicamente próxima ao pavilhão russo, confrontando silenciosamente a realidade da guerra.

Segundo reportagem do Hyperallergic, a obra não é apenas um objeto estético, mas um artefato de resistência. Originalmente instalada na cidade ucraniana de Pokrovsk, a escultura ocupava o lugar de um antigo monumento militar soviético. Com o avanço das tropas russas em 2024, a peça foi resgatada pela artista e sua equipe, iniciando uma jornada que passou por cidades como Berlim, Paris e Viena antes de alcançar a Itália. Esse percurso espelha, de forma tangível, a experiência de milhões de ucranianos forçados ao deslocamento.

A metáfora do Memorando de Budapeste

A escolha da forma do cervo, que remete à fragilidade do origami, carrega um peso político imediato. Conforme a documentação presente no pavilhão ucraniano, a obra faz referência direta ao Memorando de Budapeste de 1994. O acordo, que previa garantias de integridade territorial para a Ucrânia em troca do desarmamento nuclear, mostrou-se ineficaz diante da invasão russa iniciada em 2014 e intensificada em 2022.

O contraste entre a solidez do concreto e a aparência de leveza do papel sublinha a precariedade das promessas diplomáticas. A obra funciona como um lembrete físico de que garantias assinadas em papel podem ser tão frágeis quanto o origami diante de uma força militar que ignora tratados internacionais. A leitura aqui é que a arte, neste contexto, preenche o vácuo deixado pela falha das instituições globais em proteger a soberania ucraniana.

Mecanismos de deslocamento e memória

O projeto de Kadyrova transcende a estática da escultura ao incorporar uma dimensão performática e documental. Vídeos que acompanham a instalação registram a jornada da peça em caminhões e barcos, capturando momentos de interação com o público e a equipe de apoio. Essa documentação transforma a escultura em um "refugiado artístico", cujos encontros em cada cidade europeia serviram como pontos de debate sobre a guerra.

Os registros visuais mostram a transição entre a normalidade de uma cidade ucraniana e a realidade da sobrevivência sob a sombra da ocupação. A circulação do cervo por capitais europeias funcionou como um mecanismo de conscientização, unindo a diáspora ucraniana e sensibilizando o público internacional para a perda do patrimônio cultural e humano provocada pelos ataques russos.

Implicações para o ecossistema cultural

A presença dessa obra em um ambiente tão diplomático quanto a Bienal de Veneza expõe as tensões inerentes à neutralidade artística. Enquanto o evento enfrenta críticas por manter a participação russa, a obra de Kadyrova força o espectador a confrontar a assimetria entre a diplomacia oficial e a realidade do terreno. A instalação não busca apenas o lamento, mas a afirmação da identidade cultural ucraniana como um ato de resiliência.

Para o mercado global de arte, o caso levanta questões sobre o papel dos museus e pavilhões em tempos de crise. A arte deixa de ser um objeto de contemplação passiva para se tornar um elemento ativo na narrativa de sobrevivência de um povo. A conexão entre a obra e a audiência, composta por refugiados que reencontram em Veneza um pedaço de seu lar, redefine o propósito da Bienal como um espaço de testemunho histórico.

Perspectivas e incertezas

O que permanece em aberto é o destino final da escultura após o encerramento da Bienal em novembro de 2026. A obra, que já sobreviveu a uma zona de conflito, carrega agora a responsabilidade de ser um símbolo coletivo. Observar como a recepção crítica e pública evoluirá ao longo dos meses será fundamental para entender se a arte conseguirá manter a urgência da causa ucraniana no debate público europeu.

A persistência da guerra e a degradação constante de infraestruturas civis sugerem que a trajetória do "cervo de concreto" está longe de terminar. A obra continua a ser um marco de resistência, desafiando o esquecimento enquanto a reconstrução da Ucrânia permanece um horizonte distante e incerto. O impacto dessa instalação ecoará para além dos limites da Arsenale, questionando a eficácia dos sistemas de segurança que, um dia, prometeram proteger o que agora se encontra em ruínas.

Com reportagem de Hyperallergic

Source · Hyperallergic