Uma nova habilidade está sendo exigida em entrevistas de emprego, e ela não é puramente técnica, mas performática: demonstrar entusiasmo por inteligência artificial. Profissionais em busca de recolocação, especialmente no setor de tecnologia, relatam uma pressão crescente para exibir familiaridade e otimismo com IA, independentemente de suas experiências ou opiniões reais sobre o tema.

A demanda surge em um momento estratégico: as empresas que mais investem em IA estão também entre as que mais contratam. O resultado é um dilema que coloca pragmatismo contra autenticidade. Ser honesto sobre o ceticismo com o hype ou os impactos da tecnologia pode ser um luxo que poucos podem bancar, como aponta uma reportagem do Business Insider. Nesse novo cenário, a sinceridade pode custar uma oportunidade de emprego.

O teatro da proficiência

Para muitos candidatos, a entrevista de emprego se tornou um palco. Profissionais relatam a necessidade de criar narrativas sobre como a IA transformou seu trabalho, mesmo que a experiência prática seja limitada ou recente. Cristina Estupiñán, uma desenvolvedora de software demitida, admitiu à publicação que precisa "inventar algo sobre o que a entusiasma na IA, porque, francamente, nada me entusiasma", citando preocupações com o impacto ambiental e social da tecnologia. É um sentimento compartilhado por outros que se sentem cobrados a obter "uma educação inteiramente nova em IA" para se manterem relevantes.

Essa pressão não é infundada. Um estudo recente da Ramp e Revelio Labs, citado pela reportagem, constatou que empresas com maiores investimentos em IA tendem a apresentar maior crescimento no número de funcionários. Kareem Osman, vice-presidente da empresa de recrutamento Robert Half, afirma que os gestores de contratação buscam entender como os candidatos usam IA para superar desafios e otimizar processos. O interesse é por profissionais "adaptáveis, que abraçam novas tecnologias", mas que não dependem inteiramente delas.

Lendo a sala (e o hype)

A questão se torna, então, uma de calibragem: qual o nível certo de entusiasmo a ser demonstrado? Um funcionário de uma Big Tech, que busca um novo emprego enquanto ainda está empregado, disse ser cético em relação ao hype, mas se candidata a vagas de IA porque é "onde o dinheiro está". Ele acredita que sua falta de entusiasmo fingido em uma entrevista pode ter lhe custado a vaga. Para quem está desempregado, a pressão para se conformar é ainda maior.

Saber ler o ambiente é crucial. Um ex-profissional de comunicação notou que, nos últimos meses, as preocupações com os custos e o uso excessivo de IA cresceram. Por isso, ele ajustou seu discurso nas entrevistas, focando mais em identificar onde as ferramentas são genuinamente úteis, e não como uma "bala de prata mágica". A recomendação de especialistas, como o analista de RH Josh Bersin, é que os candidatos podem ser honestos sobre suas reservas, mas uma declaração taxativa de que "não acreditam em IA" provavelmente encerrará a conversa.

O domínio da IA, portanto, está se tornando um item tácito nos currículos e, mais importante, um roteiro a ser decorado para entrevistas. Para os candidatos, o desafio não é apenas aprender a usar as ferramentas, mas navegar a linha tênue entre a adaptação pragmática e a conformidade cínica. A questão que fica é se essa demanda por entusiasmo não estaria filtrando, justamente, o pensamento crítico que as empresas dizem tanto valorizar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider