A inteligência artificial generativa está sendo incorporada a um número crescente de objetos cotidianos, e a fronteira mais recente é uma das mais delicadas: os brinquedos infantis. Produtos como o boneco Gabbo e o urso de pelúcia Chattybear, que utilizam tecnologia da OpenAI para conversar com crianças, já são uma realidade no mercado internacional, prometendo uma experiência interativa e educativa. A proposta é sedutora, mas acendeu um sinal de alerta entre especialistas em desenvolvimento infantil.
Segundo uma reportagem do jornal argentino La Nación, há pouquíssima pesquisa sobre o impacto dessa tecnologia em crianças em idade pré-escolar. A questão central que emerge não é sobre a sofisticação da tecnologia, mas sobre seu papel no universo psíquico e emocional infantil. A discussão é se esses objetos são companheiros de fato ou meros algoritmos que podem interferir em uma fase crucial da formação da subjetividade.
O jogo simbólico sob ameaça
O cerne da preocupação dos especialistas reside na diferença fundamental entre o brincar tradicional e a interação com uma IA. Um brinquedo convencional, como um simples urso de pelúcia, funciona como um objeto de transição e uma tela em branco para a imaginação. É a criança quem projeta sentimentos, cria diálogos e constrói narrativas. Como explica a psicóloga Clara Raznoszczyk Schejtman na reportagem, este é o chamado “jogo simbólico”, um pilar saudável do desenvolvimento onde a criança é a autora do seu próprio mundo imaginário.
Os brinquedos com IA invertem essa dinâmica. Em vez de uma tela para projeção, eles se impõem com respostas autônomas e conteúdo próprio. O objeto deixa de ser um receptáculo passivo da criatividade infantil para se tornar um agente ativo que introduz ideias e direciona a brincadeira. A pediatra Silvina Pedrouzo, presidente da Subcomissão de TICs da Sociedade Argentina de Pediatria, aponta que isso é particularmente problemático na primeira infância, quando a criança ainda está solidificando a diferenciação entre fantasia e realidade. O brinquedo que “pensa por si mesmo” pode confundir essa percepção.
A ilusão da empatia
Outro ponto crítico é a incapacidade da IA de oferecer suporte emocional genuíno. Um estudo exploratório da Universidade de Cambridge sobre o boneco Gabbo documentou interações frustrantes. Pais relataram que o brinquedo interrompia as crianças, não distinguia vozes e, mais grave, respondia de forma inadequada a declarações emocionais. Em um exemplo citado, uma criança de três anos disse “estou triste”, e o robô respondeu: “Não se preocupe! Sou um pequeno robô muito feliz. Vamos continuar nos divertindo”.
Essa falta de sintonia expõe o risco de as crianças desenvolverem relações “parassociais” — vínculos afetivos unilaterais com um objeto que não possui vida interior nem capacidade de compreensão. A IA pode simular uma frase empática, mas não experimenta empatia. Ela não conhece a história da criança nem pode assumir responsabilidade por suas respostas, que podem ser equivocadas ou prejudiciais. A UNICEF, em seu guia sobre IA e infância, já alerta para o problema dos “companheiros de IA” que são incapazes de oferecer calma e contenção reais.
A recomendação de especialistas, portanto, não é de uma proibição, mas de cautela e supervisão. A ausência de provas de dano, como ressaltam, não deve ser confundida com evidência de segurança. A interação humana, com sua complexidade de gestos, olhares e silêncios, continua sendo insubstituível para o desenvolvimento. A questão que fica para pais e educadores é se a promessa de um amigo algorítmico vale o risco de suprimir a capacidade da criança de inventar seus próprios mundos a partir do tédio, da imaginação e de uma simples caixa de papelão.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · La Nación — Tecnología





