A China, pioneira na adoção de veículos elétricos (VEs), agora se vê diante de um novo e complexo desafio: o que fazer com as baterias que chegam ao fim de sua vida útil. A transição para a mobilidade elétrica, embora crucial para as metas ambientais e de desenvolvimento tecnológico do país, gera um volume massivo de resíduos que exige atenção imediata. Autoridades chinesas projetam que o volume de baterias usadas ultrapassará 1 milhão de toneladas anualmente até 2030, um salto significativo em relação às estimativas de 200.000 toneladas em 2020. Este cenário não é apenas uma questão ambiental, mas também econômica e de segurança, visto que baterias degradadas podem representar riscos de incêndio e vazamento de materiais perigosos, além de conterem metais valiosos como lítio, níquel e cobalto, que a China prefere manter em sua cadeia produtiva interna.

O Cenário de Baterias e o Desafio Crescente

O mercado de veículos de novas energias (NEVs), que engloba carros elétricos a bateria e híbridos plug-in, já superou a marca de 16 milhões de unidades em 2023, representando mais da metade das vendas totais de veículos no país. A meta é ambiciosa: alcançar 70% do mercado até 2030. Cada um desses veículos, ao final de sua vida útil ou quando a capacidade da bateria cair para cerca de 80%, necessitará de uma gestão adequada de seu componente mais crítico. A obsolescência das baterias, um fator inerente à tecnologia, força o país a pensar em estratégias de longo prazo para lidar com esse fluxo constante de resíduos. A preocupação vai além do impacto ambiental, abarcando a segurança e a soberania na gestão de recursos estratégicos.

Novas Regras para Rastrear e Reciclar

Em resposta a essa iminente crise de baterias, o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT) da China, juntamente com outros cinco departamentos, publicou medidas provisórias sobre a reciclagem de baterias, em vigor desde 1º de abril. O cerne da nova regulamentação é manter a bateria vinculada ao veículo durante todo o seu ciclo de vida. Veículos desmantelados sem suas baterias de tração serão classificados como incompletos, visando impedir que esses componentes acabem em canais não controlados, como oficinas de terceiros ou descarte ilegal. Embora os modelos de troca de baterias ainda estejam sob estudo, a plataforma nacional de rastreabilidade promete atribuir uma identidade digital a cada bateria, acompanhando-a desde a produção até o descarte e reciclagem. Fabricantes e importadores são agora responsáveis por gerenciar as baterias que produzem ou introduzem no mercado, devendo estabelecer estações de reciclagem nas regiões onde operam e aceitar baterias de empresas de leasing, troca e reparo.

Inovação e a Cadeia de Suprimentos de Metais

O mercado de reciclagem de baterias na China já movimenta bilhões de euros, com empresas como a Brunp Recycling, subsidiária da CATL, gerenciando uma parcela significativa das baterias de VEs do país. A tecnologia de reciclagem avançada permite a recuperação de até 96,5% do lítio e quase 100% de níquel, cobalto e manganês. No entanto, a infraestrutura ainda é um gargalo. A falta de instalações adequadas, os riscos de incêndio e o custo do desmantelamento, agravado por designs de baterias não padronizados, representam desafios persistentes para a indústria. O novo plano industrial para o período 2026-2030 busca expandir o foco, exigindo que as empresas estabeleçam sistemas de coleta de baterias usadas proporcionais às suas vendas e incentivem a criação de capacidade de reciclagem em mercados de exportação. A proposta de um passaporte de baterias e o reconhecimento mútuo de dados de pegada de carbono são passos importantes para a transparência e sustentabilidade global.

Perguntas em Aberto para o Futuro

Apesar dos avanços regulatórios e tecnológicos, o caminho para uma gestão de baterias totalmente sustentável na China ainda apresenta incertezas. A eficácia das novas medidas na prevenção do descarte ilegal e na garantia de que todas as baterias sejam devidamente rastreadas e recicladas dependerá da fiscalização e da adesão das empresas. A padronização dos designs de baterias, que facilitaria o desmantelamento e a reciclagem, continua sendo um objetivo distante. Além disso, a expansão da infraestrutura de coleta e processamento em um país de dimensões continentais exigirá investimentos massivos e coordenação contínua entre governo e setor privado. A China está construindo um modelo, mas a sua escalabilidade e replicabilidade global ainda são pontos a serem observados.

A jornada da China na gestão de baterias de veículos elétricos é um laboratório em tempo real para o mundo. As soluções que emergirem deste desafio definirão não apenas o futuro da mobilidade sustentável no país asiático, mas também poderão oferecer um roteiro para outras nações que buscam equilibrar o crescimento econômico com a responsabilidade ambiental. A forma como o país lidará com este legado de baterias usadas será um termômetro crucial para a viabilidade a longo prazo da revolução dos VEs.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka