A economia global atravessa um momento de transformação estrutural marcado por um fluxo de capital sem precedentes. Embora a inteligência artificial domine as manchetes com os gastos bilionários de empresas como Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft, um movimento paralelo e igualmente robusto ocorre no setor de energia. Segundo Eli Horton, gestor de portfólio da TCW, estamos diante do maior ciclo de investimento de capital da história, com estimativas que apontam para quase US$ 5 trilhões até o final desta década, impulsionados pela necessidade crítica de segurança energética, eletrificação e descarbonização.

Este cenário de capex massivo revela uma mudança fundamental na dinâmica industrial. Após quase duas décadas de estagnação, a demanda por eletricidade nos Estados Unidos voltou a crescer, sustentada pela revitalização da manufatura doméstica e pela intensificação do uso de energia em toda a economia. O fenômeno não apenas valida o esforço das empresas de tecnologia, mas também beneficia setores tradicionais que, por muito tempo, operaram com capacidade ociosa ou crescimento limitado.

A convergência entre infraestrutura e tecnologia

A tese de Horton sugere que o investimento em infraestrutura pesada é o motor silencioso que sustenta a expansão digital. Empresas como a Caterpillar, cujos negócios em construção, mineração e geração de energia estão diretamente ligados a esse fluxo, exemplificam como o capital está sendo alocado em ativos tangíveis. A GE Vernova, por sua vez, ilustra a escassez de oferta em setores críticos: a demanda por suas turbinas a gás disparou, e a empresa opera com capacidade comprometida por anos, refletindo um mercado apertado.

Este gargalo na oferta de equipamentos essenciais confere um poder de negociação inédito a um grupo seleto de fabricantes globais. A realidade é que a transição energética não é apenas uma meta política, mas uma necessidade operacional que exige a reconstrução da base industrial. Enquanto a IA consome poder computacional, a infraestrutura física precisa ser modernizada para suportar essa carga, criando um ciclo de dependência mútua entre o setor de tecnologia e o de energia.

O papel da IA no fluxo de capital

Simultaneamente, os gastos em capital voltados para a inteligência artificial continuam em trajetória de aceleração absoluta. Estimativas citadas pelo Bank of America apontam para um capex anual das hyperscalers na casa das centenas de bilhões de dólares, com projeções que podem se aproximar de US$ 1 trilhão em 2027. É importante notar que uma parcela significativa desse valor é influenciada pelo custo elevado dos chips, o que sustenta margens altas para fornecedores de hardware e networking.

A dinâmica aqui é clara: as grandes empresas de tecnologia possuem margens e fluxo de caixa suficientes para absorver o aumento dos custos dos semicondutores e repassá-los ao longo da cadeia. Diferente de ciclos anteriores, em que a eficiência era o único foco, o momento atual prioriza a escala de infraestrutura. A capacidade de processamento tornou-se uma commodity estratégica, e as empresas estão dispostas a pagar caro para garantir domínio sobre essa infraestrutura.

Tensões geopolíticas e segurança energética

Fatores geopolíticos, como conflitos no Oriente Médio e riscos de interrupções em rotas críticas como o Estreito de Hormuz, atuam como catalisadores para o aumento nos gastos com energia. A segurança energética deixou de ser um conceito abstrato para se tornar uma prioridade imediata de segurança nacional para muitas economias. Esse imperativo força governos e corporações a acelerar investimentos em fontes locais e em redes de distribuição mais resilientes, independentemente das flutuações de curto prazo nos mercados financeiros.

Para o ecossistema brasileiro, a reflexão é imediata: a necessidade global por infraestrutura e energia pode abrir janelas de oportunidade para a exportação de recursos e a atração de capital voltado para a transição. Contudo, a competição por capital será acirrada, uma vez que as grandes potências estão internalizando suas cadeias de suprimento e focando em projetos de longo prazo com alta demanda garantida.

O horizonte de longo prazo

O que permanece incerto é a resiliência desse ciclo frente a possíveis desacelerações econômicas. Embora os ganhos de receita das empresas de tecnologia sugiram que a demanda por IA é durável, a escala dos investimentos é tão vasta que qualquer erro de cálculo na demanda final pode gerar excesso de capacidade. O mercado observará de perto se os retornos sobre esses investimentos gigantescos começarão a aparecer nos balanços nos próximos anos.

O futuro próximo dependerá da capacidade do mercado de equilibrar a sede por inovação tecnológica com as limitações físicas de energia e infraestrutura. A transição para uma economia mais eletrificada e digitalizada é um processo que levará décadas, e este ciclo de capex é apenas a primeira fase de uma transformação que alterará a base produtiva global de forma permanente.

O cenário desenhado aponta para uma economia em que o capital físico e o digital se fundem em um único esforço de escala. A questão central não é mais o montante investido, mas a velocidade com que essa infraestrutura será integrada à vida cotidiana das empresas e dos consumidores.

Com reportagem de Fortune

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