Imagine uma metrópole onde o horizonte é pontilhado por guindastes, mas as ruas permanecem vazias de vitalidade e as famílias continuam exaustas pelo tempo de deslocamento. Esse cenário, cada vez mais comum, é o reflexo de uma política urbana que tratou o teto como mercadoria, ignorando o ecossistema que o sustenta. O World Cities Report 2026, da ONU-Habitat, não é apenas um compêndio de dados alarmantes — como a marca de 3,4 bilhões de pessoas sem moradia adequada —, mas um espelho de nossas escolhas estruturais.

O mito da construção isolada

Durante décadas, a resposta ao déficit habitacional foi puramente quantitativa: construir mais. No Brasil, com um déficit de 5,8 milhões de domicílios, essa lógica consolidou conjuntos habitacionais em periferias distantes, onde o custo do terreno era baixo, mas o custo social era proibitivo. Construir casas sem infraestrutura, transporte ou acesso ao emprego é apenas transferir o problema de lugar. A moradia, quando isolada de sua função urbana, deixa de ser um ativo de desenvolvimento para se tornar um fardo de exclusão, sobrecarregando a produtividade das cidades e a qualidade de vida dos cidadãos.

O labirinto do planejamento urbano

A crise habitacional é, essencialmente, uma crise de continuidade institucional. Cidades não se reorganizam em ciclos de quatro anos, e a fragmentação das políticas públicas impede a criação de uma visão de longo prazo. Quando cada gestão recomeça a estratégia de zoneamento ou mobilidade, o mercado imobiliário perde o norte, tornando o capital cauteloso e inibindo investimentos em modelos como o multifamily ou o retrofit. A instabilidade institucional é o maior inimigo da habitação, pois afasta o capital de longo prazo necessário para financiar não apenas a construção, mas a operação e a manutenção de áreas urbanas densas e bem equipadas.

A necessidade de novos modelos

O debate precisa evoluir para além da compra da casa própria. Em mercados mais maduros, a diversidade de produtos como coliving, student housing e aluguel institucional oferece alternativas que o Brasil ainda resiste a integrar. Com o crédito imobiliário representando apenas 10% do PIB nacional, a falta de profundidade financeira impede que a classe média acesse moradias formais de qualidade. O desafio é criar mecanismos de financiamento que viabilizem a habitação como um serviço, integrando o custo da moradia ao custo da cidade, conectando o cidadão ao seu local de trabalho e lazer.

O futuro da agenda urbana

O que permanece incerto é se a política pública conseguirá transcender o imediatismo eleitoral. A integração entre habitação, transporte e clima não é uma escolha técnica, mas uma necessidade política urgente. O futuro das cidades dependerá da capacidade de alinhar os interesses de incorporadores, reguladores e a sociedade em prol de um adensamento inteligente. Se continuarmos tratando a casa como um objeto isolado do tecido urbano, a crise apenas se aprofundará, independentemente do número de chaves entregues. O que resta saber é quanto tempo ainda levaremos para entender que a cidade é, antes de tudo, um encontro, e não apenas um canteiro de obras.

O horizonte urbano nos convida a repensar se estamos construindo lugares onde as pessoas desejam viver ou apenas estruturas onde elas são forçadas a residir. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Metro Quadrado