O Senado dos Estados Unidos enfrenta um dilema regulatório com a tramitação do CLARITY Act, projeto de lei que, segundo críticos, pode comprometer a segurança nacional ao criar lacunas na fiscalização do mercado de criptoativos. A preocupação central reside no fato de que a proposta, da forma como está redigida, deixaria setores inteiros da indústria fora das rigorosas obrigações de combate à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo estabelecidas após os ataques de 11 de setembro.

Documentos recentes do FinCEN, a unidade de inteligência financeira do Departamento do Tesouro dos EUA, reforçam o alerta sobre o uso crescente de moedas digitais por nações como o Irã para contornar sanções internacionais. A tese editorial é que o CLARITY Act, ao tentar modernizar a regulação, pode acabar desmantelando ferramentas vitais que permitem às autoridades rastrear fluxos financeiros ilícitos, expondo o sistema financeiro americano a riscos evitáveis.

O legado pós-11 de setembro em xeque

Desde 2001, o arcabouço regulatório financeiro americano foi desenhado para impedir que instituições bancárias servissem de canal para organizações criminosas, traficantes de armas e regimes autoritários. O sistema exige que provedores de serviços financeiros monitorem transações e reportem atividades suspeitas, criando um cinturão de segurança que, na visão de especialistas, está sendo contornado pelo setor cripto sob o pretexto de inovação tecnológica.

A crítica ao CLARITY Act é que ele introduz isenções perigosas para o ecossistema de finanças descentralizadas (DeFi). Ao não exigir que todos os agentes que lucram ou administram serviços de DeFi mantenham programas de conformidade, a legislação criaria um ambiente onde atores mal-intencionados poderiam operar sem deixar rastros, enfraquecendo reformas que levaram décadas para serem consolidadas.

Mecanismos de exploração regulatória

O cerne do problema reside na distinção entre intermediários tradicionais e o software descentralizado. Enquanto bancos são obrigados a seguir normas estritas do Bank Secrecy Act, o projeto de lei falha em estender essas responsabilidades de forma clara quando a função de intermediário é exercida por códigos ou plataformas sem sede definida. Isso cria um campo fértil para a arbitragem regulatória.

Além disso, a falta de exigências robustas para plataformas offshore que atendem clientes americanos agrava o cenário. A ausência de monitoramento sistêmico para stablecoins, por exemplo, permite que grandes volumes de capital transitem à margem da fiscalização estatal, facilitando a movimentação de recursos por países sob sanções, como Coreia do Norte e Rússia, que veem nas criptomoedas uma válvula de escape para suas economias isoladas.

Tensões entre inovação e segurança

O embate envolve diversos stakeholders, desde empresas de tecnologia que buscam um ambiente regulatório mais leve até órgãos de segurança pública. A Fraternal Order of Police, maior organização de policiais dos EUA, manifestou preocupação de que as isenções previstas no texto dificultem o trabalho de investigadores no rastreamento de crimes digitais. A tensão é clara: o que o setor de cripto chama de flexibilidade necessária, as autoridades encaram como uma vulnerabilidade sistêmica.

Para o ecossistema brasileiro, o debate serve como um espelho. À medida que o Brasil avança na regulação de ativos virtuais, a discussão americana ressalta que a eficácia da lei não depende apenas de sua existência, mas de sua capacidade de não criar zonas cinzentas. A experiência internacional sugere que qualquer tentativa de tratar cripto como um sistema paralelo, isento das regras aplicáveis ao setor bancário tradicional, tende a atrair fluxos ilícitos.

O futuro da vigilância financeira

Permanecem incertas as consequências de longo prazo caso o projeto seja aprovado sem emendas que fechem essas lacunas. A grande questão que o Congresso americano precisará responder é se a busca por liderança tecnológica compensa o risco de fragilizar a soberania financeira do país diante de adversários geopolíticos.

O monitoramento do desenrolar dessa legislação será crucial para entender como as democracias globais lidarão com a intersecção entre tecnologia descentralizada e segurança nacional. O debate está apenas começando e a forma final do CLARITY Act definirá se o sistema financeiro se tornará mais resiliente ou mais exposto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune