As transformações impostas pela agenda climática representam uma das maiores oportunidades econômicas das próximas décadas, mas o Brasil corre o risco de assisti-la da arquibancada. A avaliação, feita por especialistas em um debate promovido pelo InfoMoney, aponta para um paradoxo central: embora o país concentre ativos estratégicos — da biodiversidade à matriz energética limpa —, a capacidade de converter esse potencial em uma indústria de tecnologia climática de ponta ainda é incipiente.
O problema não é a falta de capital global. Fundos de venture capital especializados em tecnologias climáticas levantaram mais de US$ 90 bilhões nos últimos anos, um volume que supera com folga todo o ecossistema de capital de risco brasileiro. A questão é que esse dinheiro não está chegando aqui na mesma proporção da oportunidade. A leitura é que o Brasil ainda não se posicionou de forma ambiciosa para disputar essa nova fronteira econômica.
O capital existe, a oportunidade também
Segundo Zé Gustavo, diretor-executivo do Fórum Brasileiro das Climatechs, a América Latina como um todo acessa menos de 1% do montante global destinado ao setor. O que torna o cenário mais complexo é que a maior parte dos cheques para as startups brasileiras de clima ainda vem de gestores internacionais. Eles enxergam o potencial que, muitas vezes, o capital local parece ignorar.
Para Júlia Marisa Sekula, cofundadora da Terradot, essa dinâmica expõe uma contradição. “O Brasil tem todas as vantagens competitivas para ser o melhor e maior mercado. Tanto que fundos de fora estão investindo em empresas brasileiras. Já empresas brasileiras não estão investindo em empresas brasileiras”, afirmou ela durante o debate. O diagnóstico sugere que o entrave não está na qualidade dos ativos ou dos empreendedores, mas em uma falha estrutural de alocação de capital e de visão de longo prazo.
Não é pauta ambiental, é política industrial
A discussão sobre clima, argumentam os especialistas, precisa migrar da esfera puramente ambiental para a de estratégia econômica. A transição para uma economia de baixo carbono promoverá uma reorganização de mercados em escala comparável à da revolução digital. As empresas que liderarão seus setores daqui a 40 anos, como aponta Zé Gustavo, “estão nascendo agora”. A questão é onde elas nascerão.
Para que nasçam no Brasil, é preciso mais do que recursos naturais. É necessário um ecossistema que conecte ciência, tecnologia e mercado, um modelo que transformou o Vale do Silício em polo de inovação. Segundo Sekula, o país investe pouco em pesquisa e desenvolvimento e, crucialmente, falha em criar pontes entre universidades e o setor privado. Sem essa engrenagem, o risco é o Brasil se consolidar no papel histórico de exportador de commodities — desta vez, verdes —, enquanto importa a tecnologia de alto valor agregado.
A janela para definir o papel do Brasil nesta nova economia está aberta. O debate não é mais sobre se a transição ocorrerá, mas sobre quem irá capturar o valor gerado por ela. A decisão de ser protagonista ou coadjuvante precisa ser tomada agora, combinando políticas públicas, capital empreendedor e uma ambição industrial à altura da oportunidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





