Em Veguellina de Órbigo, uma pequena localidade na província de León, Espanha, reside Miguel Pérez García, mais conhecido pelo apelido de "Trébol". Aos 14 anos, ele iniciou sua jornada em uma cabine de projeção, e hoje, décadas depois, dedica-se a reconstruir máquinas que o mercado já esqueceu. Seu amor pelo cinema se manifesta em uma coleção impressionante de mais de 150 projetores de cinema, todos em perfeito estado de funcionamento, abrigados em um antigo local municipal que se transformou em seu vasto armazém.

"Todos funcionam", faz questão de frisar Miguel. O que começou com cerca de 70 aparelhos em 2013, cresceu exponencialmente, com a chegada de aproximadamente seis novas peças por ano. Cada restauração exige semanas de trabalho meticuloso, pois não há peças de reposição disponíveis, e a digitalização do cinema tornou esses equipamentos obsoletos para a indústria. A coleção de Trébol é um verdadeiro compêndio da evolução da projeção cinematográfica, incluindo desde uma lanterna mágica do final do século XIX até o último projetor utilizado nos Cinebox de Barcelona, que operou até 2004. Há também modelos icônicos como o Pathé Baby dos anos 1920, projetores de cinema ambulante como o Marín, e máquinas robustas como o Kinoton, que exigiu seis homens para ser desmontado.

A paixão de Miguel pela sétima arte e sua preservação é um reflexo de uma era que se despede. A transição para o cinema digital, que em 2018 já dominava 98,6% das salas espanholas, deixou para trás a magia e a qualidade técnica dos projetores de 35 mm. Uma cópia em 35 mm, segundo estimativas, equivalia a uma resolução 8K, superior aos primeiros projetores digitais que mal atingiam 2K. A digitalização trouxe agilidade na distribuição, mas, para muitos, implicou a perda de "qualidade, definição e calor" na experiência cinematográfica.

O início dessa jornada colecionista, que Miguel descreve como um "acidente", remonta a 1996, após uma exibição aérea em Valladolid. Um mecânico de aviação ofereceu-lhe um proyector danificado vindo das Canárias. A experiência como eletricista de Miguel foi fundamental para dar vida a essa primeira peça, despertando um interesse que já vinha da infância, quando ele recolhia sucata para conseguir dinheiro para ir ao cinema.

O legado de "Trébol" vai além da mera coleção; é um ato de resistência contra o esquecimento. Ele preserva não apenas máquinas, mas também a memória de um ofício e de uma tecnologia que moldaram a forma como a sociedade consumia entretenimento. Seu sonho é abrir um museu em sua cidade natal, um espaço onde a história do cinema possa ser contada e vivenciada, honrando a memória de figuras como Adolfo García, "Fines", seu mentor e "Alfredo" particular, que o ensinou os segredos da cabine de projeção.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka