Um enigmático surto de raios-X com duração de dez minutos, um fenômeno sem precedentes na astronomia, está levando cientistas a reavaliar a natureza das colisões cósmicas. O evento, denominado EP250704a e detectado pela sonda Einstein Probe em 4 de julho de 2025, foi precedido por um breve lampejo de raios gama e seguido por uma emissão de raios-X excepcionalmente longa. Essa observação, que desafia modelos anteriores, sugere que tais explosões podem ser a assinatura de fusões entre estrelas de nêutrons, os remanescentes compactos de estrelas massivas que, em seus choques violentos, são responsáveis pela forja de elementos pesados essenciais à vida, como ouro, prata e platina.

O Fenômeno Inédito

A equipe liderada pelo astrônomo Niccolò Passaleva utilizou o Very Large Telescope (VLT) do Observatório Europeu do Sul e o Very Large Array (VLA), entre outros instrumentos, para investigar as consequências do surto. Passaleva descreveu o evento como "o flash de raios-X mais duradouro já observado de uma fusão de estrelas de nêutrons", ressaltando que se trata de uma oportunidade única para "ter um assento na primeira fila para as forças mais extremas do universo e descobrir mais de seus segredos". Estrelas de nêutrons são objetos incrivelmente densos, com a massa de um ou dois sóis comprimida em um diâmetro similar ao de uma cidade terrestre. Uma única colher de chá de sua matéria pesaria cerca de dez milhões de toneladas. Quando duas dessas estrelas colidem, a turbulência gerada é capaz de criar elementos mais pesados do que aqueles forjados no núcleo das estrelas.

A Hipótese do Magnetar

Embora as fusões de estrelas de nêutrons, conhecidas como kilonovas, sejam tradicionalmente associadas a flashes de raios gama de curta duração, pesquisas recentes indicam que algumas fusões podem se manifestar através de emissões de raios-X que persistem por minutos. Cientistas já suspeitavam que as centenas de flashes de raios-X detectados pela Einstein Probe desde seu lançamento em 2024 pudessem ter essa origem, embora alguns tenham sido ligados à morte explosiva de estrelas massivas, enquanto outros permaneciam sem explicação. O EP250704a se encaixa nesse último grupo. A equipe de pesquisa, incluindo Eleonora Troja, colaboradora da Einstein Probe, acredita que algo específico na composição dessas fusões resulta em surtos de raios-X prolongados. A hipótese central é que uma das estrelas de nêutrons envolvidas na colisão era um magnetar – uma estrela de nêutrons com um campo magnético extremamente poderoso, gerado pela compressão das linhas de campo durante o colapso estelar. "Se o remanescente da colisão for um magnetar, ele pode continuar emitindo por mais tempo", explicou Troja. "Magnetars são estrelas de nêutrons em rápida rotação com campos magnéticos enormes. Quando descarregam seu poder magnético no ambiente circundante, podem tornar qualquer explosão mais brilhante e duradoura."

Implicações e Próximos Passos

A equipe descartou a possibilidade de um surto de supernova como causa do evento e determinou que a luz do EP250704a viajou por 6 bilhões de anos até chegar à Terra. A descoberta de mais eventos de raios-X extremos como este poderá ajudar os astrônomos a determinar a frequência com que magnetars são formados a partir de fusões de estrelas de nêutrons. A pesquisa, publicada no periódico Science Bulletin, abre novas avenidas para a compreensão dos eventos mais energéticos do cosmos e a origem dos elementos pesados que compõem nosso universo, incluindo o planeta em que vivemos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Space.com