A Compass, uma das maiores corretoras de imóveis dos Estados Unidos, está apostando alto na inteligência artificial para otimizar as operações de seus 83 mil corretores. A empresa lançou recentemente o AI Assistant, uma ferramenta projetada para automatizar tarefas administrativas repetitivas e identificar novas oportunidades de vendas, buscando aumentar a eficiência e a produtividade de seus agentes.

O lançamento foi acompanhado por uma forte campanha de adoção liderada pela alta gerência, incluindo o CEO Robert Reffkin. Um dia de demonstração online atraiu mais de 10 mil agentes, e executivos têm visitado escritórios regionais para promover a ferramenta. A estratégia visa superar a inércia e o ceticismo históricos do setor imobiliário em relação a novas tecnologias, um entrave que já permitiu a ascensão de plataformas digitais como Zillow e Redfin no passado.

Aposta na Eficiência e Prospecção

O AI Assistant foi concebido para ir além da criação de conteúdo, como em versões anteriores da IA da Compass. A nova ferramenta atua de forma mais proativa, gerando listas de clientes potenciais prestes a vender e redigindo mensagens personalizadas para reengajamento. Sua capacidade de reconhecimento de voz permite que os agentes ditem notas enquanto se deslocam entre compromissos, e a ferramenta também pode compilar listas de imóveis para compradores, conhecidas como Compass Collections. A integração com mais de 100 ferramentas imobiliárias distintas visa simplificar o fluxo de trabalho, exigindo que os agentes apenas saibam como instruir a IA, sem a necessidade de dominar jargões específicos da plataforma.

A iniciativa reflete uma tendência mais ampla do mercado. Segundo a National Association of Realtors (NAR), nove em cada dez corretores já utilizam IA ou planejam fazê-lo, com mais de dois terços relatando economia de tempo semanal. A Compass, ao investir em uma IA mais 'agente', busca capturar o valor máximo dessa tecnologia, movendo-se do modelo de 'chat' para um assistente mais autônomo e capaz de realizar ações concretas.

Desafios de Adoção e Ceticismo

Apesar do potencial, a adoção de novas tecnologias no setor imobiliário enfrenta barreiras significativas. A idade média dos corretores nos EUA é de 57 anos, e pesquisas indicam que profissionais mais velhos tendem a usar chatbots de IA com menos frequência para o trabalho. Historicamente, o setor demorou a abraçar a internet e os aplicativos móveis, abrindo espaço para concorrentes digitais. A Compass precisa não apenas apresentar a tecnologia, mas também convencer uma força de trabalho com um histórico de ceticismo em relação à inovação tecnológica.

Além disso, a própria IA representa um risco de desintermediação. Há relatos de consumidores utilizando chatbots para realizar transações imobiliárias por conta própria, buscando economizar em taxas. A democratização dos serviços de agentes por meio de sistemas de IA levanta a questão sobre o futuro do papel desses profissionais. A experiência humana, o julgamento apurado e a inteligência emocional, qualidades que Golod considera insubstituíveis pela IA, tornam-se o principal diferencial a ser defendido.

Regulamentação e o Futuro do Setor

O cenário regulatório também começa a moldar o uso da IA no mercado imobiliário. Em Nova York, há propostas para exigir a divulgação do uso de IA na geração ou alteração de fotos e vídeos de anúncios. Essa atenção regulatória pode influenciar como as corretoras e agentes implementam e comunicam o uso de tais ferramentas.

Para a Compass, o desafio reside em equilibrar a promessa de eficiência da IA com a necessidade de manter o toque humano essencial nas transações imobiliárias. A empresa aposta que a IA servirá como um complemento, liberando os corretores para se concentrarem nas interações de alto valor e na tomada de decisões estratégicas, em vez de se perderem em tarefas administrativas. A forma como essa transição será gerenciada definirá o sucesso da iniciativa e seu impacto no mercado.

O caminho para a plena integração da IA no setor imobiliário ainda é longo e repleto de incertezas. A capacidade da Compass de superar a resistência à mudança e demonstrar o valor tangível de suas ferramentas será crucial para consolidar sua posição e redefinir a atuação de seus corretores. Observar a evolução da adoção e as respostas do mercado a essa aposta tecnológica será fundamental.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune