A percepção pública brasileira sobre os Estados Unidos atingiu seu patamar mais baixo desde o início da série histórica do Pew Research Center. Dados divulgados nesta terça-feira (23) indicam que apenas 32% dos brasileiros acreditam que o governo americano respeita as liberdades individuais de sua própria população, um reflexo direto da crescente desconfiança em relação às instituições e à postura de Washington no cenário internacional.
O levantamento, realizado entre fevereiro e maio deste ano com mais de 42 mil entrevistados em 36 países, mostra uma queda de 17 pontos percentuais na avaliação positiva dos EUA no Brasil em comparação a 2024, recuando de 64% para 47%. A mudança sinaliza um distanciamento significativo da opinião pública nacional em relação à potência norte-americana, exacerbado por tensões diplomáticas e comerciais recentes.
O desgaste da imagem americana
A desconfiança não se limita a questões abstratas de política externa, mas atinge a percepção de utilidade prática da parceria bilateral. Apenas 36% dos brasileiros hoje consideram os Estados Unidos um parceiro confiável. Esse ceticismo é acompanhado por uma crença disseminada de que Washington ignora os interesses de nações como o Brasil ao definir suas prioridades globais, uma visão compartilhada por 57% dos entrevistados.
Historicamente, a imagem americana oscilou conforme as administrações e o contexto geopolítico. No entanto, a atual leitura sugere uma mudança estrutural, onde a percepção de que os EUA contribuem para a estabilidade global despencou de 64% para 40% em apenas dois anos. O dado revela que o soft power americano, tradicionalmente forte na América Latina, sofre um processo de erosão acelerado.
O fator Trump na balança
A figura de Donald Trump atua como um catalisador negativo na relação bilateral. Com apenas 30% de confiança entre os brasileiros, o republicano enfrenta uma rejeição de 64% quando o tema é a condução de assuntos internacionais. A desaprovação é particularmente alta em tópicos sensíveis, como a política migratória, o manejo de tensões com o Irã e a condução da guerra entre Rússia e Ucrânia.
O mecanismo de desgaste é claro: as políticas protecionistas e o estilo de governança do republicano colidem com as expectativas de uma política externa que, na visão do público brasileiro, deveria ser pautada pelo multilateralismo. A baixa aprovação das tarifas comerciais defendidas por Trump, que conta com apenas 19% de apoio no Brasil, ilustra como a agenda econômica do líder americano é vista como uma ameaça direta aos interesses nacionais.
Tensões diplomáticas e interferência
A percepção de que os Estados Unidos exercem uma interferência desproporcional nos assuntos internos de outros países é um ponto de convergência no debate público brasileiro. Cerca de 76% dos entrevistados afirmam que Washington se intromete em questões domésticas alheias, um índice que sobe para 82% entre os jovens de 18 a 29 anos. Essa visão sugere que a soberania nacional tornou-se um tema de alta sensibilidade na agenda política local.
Para o ecossistema brasileiro, o impacto é multifacetado. O cenário de atrito, marcado por tensões comerciais e divergências diplomáticas, cria um ambiente de incerteza para exportadores e formuladores de políticas públicas. A relação, embora necessária, enfrenta um dilema de legitimidade perante o eleitorado, forçando o governo a equilibrar a necessidade de pragmatismo com a pressão por uma postura mais independente.
O futuro da parceria bilateral
A questão central que permanece em aberto é se esse declínio na confiança é uma tendência cíclica, dependente de ciclos eleitorais, ou uma transformação duradoura na forma como o Brasil enxerga seu papel frente às grandes potências. A desconfiança global observada pelo Pew Research Center sugere que o fenômeno não é isolado ao caso brasileiro, mas parte de um realinhamento mais amplo na ordem internacional.
O que se observa é uma desconexão crescente entre os interesses estratégicos das elites políticas e a percepção da população. O monitoramento das próximas movimentações diplomáticas, especialmente em relação a novos protocolos comerciais, será determinante para entender se a percepção pública tende a se estabilizar ou se o distanciamento entre Brasília e Washington continuará a crescer nos próximos anos.
O cenário atual impõe desafios à diplomacia brasileira, que precisa navegar entre a necessidade de manter canais abertos com a maior economia do mundo e a crescente rejeição interna aos métodos e políticas adotados pela atual gestão americana. A forma como essa equação será resolvida definirá o tom das relações transatlânticas na próxima década.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





