O Congresso dos Estados Unidos está avançando com uma proposta legislativa que pode obrigar montadoras a manter receptores de rádio AM em todos os veículos novos. A medida, denominada AM Radio for Every Vehicle Act, foi integrada ao amplo projeto de lei Motor Vehicle Modernization Act de 2026 e discute-se agora sua inclusão no Build America 250 Act, uma legislação de infraestrutura com forte apoio bipartidário.
Segundo reportagem do The Drive, a iniciativa ganhou tração após o avanço do Build America 250 Act pelo Comitê de Transportes e Infraestrutura da Câmara com votação expressiva de 62 a 2. O cronograma é apertado, já que os legisladores buscam a aprovação antes de 30 de setembro, data em que expiram as atuais autorizações de financiamento para rodovias e programas de trânsito no país.
O impasse técnico e financeiro
A resistência das montadoras não é recente e baseia-se em dois pilares principais: custo e engenharia. A Alliance for Automotive Innovation, que representa gigantes como Ford, Volkswagen e Toyota, argumenta que a transição para veículos elétricos introduz desafios técnicos significativos. Motores de alta voltagem geram interferência eletromagnética que prejudica a qualidade do sinal AM, exigindo blindagens e componentes adicionais para garantir uma recepção limpa.
Além disso, o impacto financeiro é uma preocupação central para o setor. Estimativas citadas pela indústria indicam que o custo unitário dos receptores pode chegar a 70 dólares, totalizando um gasto acumulado de aproximadamente 3,8 bilhões de dólares para as fabricantes até 2030. Para as montadoras, essa obrigatoriedade representa um retrocesso tecnológico que ignora a preferência do consumidor por sistemas digitais e de streaming.
Segurança pública como argumento central
Por outro lado, os defensores da medida deslocam o debate da conveniência tecnológica para a resiliência em situações de crise. A tese central é de que o rádio AM funciona como um sistema de comunicação de última instância em cenários de desastres naturais ou falhas críticas na infraestrutura digital e de internet. Em um ambiente onde redes celulares podem ser derrubadas, o rádio AM permanece como um canal de difusão massiva de informações governamentais.
Essa visão reflete uma preocupação com a soberania da informação e a segurança nacional. Enquanto o mercado foca na obsolescência do hardware, os legisladores argumentam que a utilidade pública do rádio AM não deve ser medida pela frequência diária de uso, mas pela sua eficácia em momentos extremos. A pergunta que impulsiona o projeto é: o que acontece quando as alternativas modernas falham?
Implicações para o ecossistema automotivo
A possível obrigatoriedade cria um precedente regulatório que pode afetar o design de futuros veículos globais. Se os Estados Unidos impuserem essa exigência, montadoras poderão ser forçadas a manter linhas de produção diferenciadas ou a adotar soluções técnicas mais caras para todos os mercados, a fim de manter a escala produtiva. Para o consumidor, isso pode significar um aumento no preço final do veículo, repassando os custos de conformidade regulatória.
No Brasil, o debate sobre a rádio AM também é acompanhado com atenção, dado que o mercado automotivo nacional frequentemente segue padrões globais de tecnologia. Embora o contexto de desastres climáticos e resiliência de rede tenha nuances diferentes, a discussão sobre a manutenção de tecnologias legadas em carros modernos é um tema que ecoa entre reguladores e fabricantes locais.
O futuro da conectividade veicular
O destino da proposta depende agora da negociação política em Washington. A estratégia de atrelar a obrigatoriedade do rádio AM ao pacote de financiamento de infraestrutura é uma manobra astuta para garantir sua aprovação, mas a pressão das montadoras continua intensa. A incerteza permanece sobre se o custo de implementação será considerado um preço aceitável para a segurança pública.
O que se observa é um embate clássico entre a inovação privada e a regulação pública. Enquanto o setor automotivo busca eficiência e modernização, o Estado busca garantias de redundância em seus sistemas de comunicação. A decisão final definirá o papel das montadoras como prestadoras de serviços de segurança ou apenas como fabricantes de dispositivos de mobilidade.
O desenrolar desta votação oferecerá um termômetro sobre a influência do lobby automotivo frente a questões de interesse público e segurança nacional.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Drive





