Um consórcio de peso, integrando Stripe, Visa, BlackRock e mais de 140 empresas, anunciou o lançamento da Open USD (OUSD), uma nova stablecoin projetada para desafiar o duopólio formado por Tether e Circle. A iniciativa, liderada pela empresa Open Standard, promete uma estrutura diferenciada ao repassar a maior parte da receita gerada pelas reservas aos participantes, retendo apenas uma taxa mínima de gestão. O movimento marca uma ofensiva corporativa sem precedentes contra as atuais líderes do mercado de ativos digitais atrelados ao dólar.
A estratégia reflete uma tentativa clara de descentralizar os benefícios financeiros que hoje ficam concentrados nas emissoras tradicionais. Segundo Zach Abrams, CEO interino da Open Standard e cofundador da Bridge — startup adquirida pela Stripe por US$ 1,1 bilhão em 2025 —, a OUSD foi desenhada especificamente para atender às necessidades da economia digital. A ausência de Tether e Circle no consórcio evidencia a intenção de criar um ecossistema independente, focado em eficiência e alinhamento de interesses entre os grandes players do setor financeiro e tecnológico.
O novo cenário regulatório
A criação da OUSD ocorre em um ambiente de maior clareza jurídica após a sanção do Genius Act pelo presidente Donald Trump em julho de 2025. Este arcabouço regulatório pavimentou o caminho para que grandes corporações, como a Klarna e players do varejo como Amazon e Walmart, explorassem a emissão de seus próprios ativos. O setor de stablecoins, antes visto como um nicho experimental, tornou-se uma ferramenta estratégica para a infraestrutura de pagamentos global.
A transição para stablecoins corporativas não é um fenômeno isolado, mas parte de uma tendência de consolidação de redes blockchain para liquidação financeira. A estrutura da OUSD sugere que o valor da stablecoin reside não apenas na paridade cambial, mas na capacidade de converter o capital ocioso das reservas em dividendos para os membros do consórcio, alterando a lógica de lucro das emissoras tradicionais.
Mecanismos de mercado e competição
O modelo de negócio da OUSD ataca diretamente o ponto mais sensível de Tether e Circle: a retenção dos juros sobre os ativos de lastro. Ao transformar a stablecoin em um ativo que gera retorno direto para os participantes, o consórcio cria um incentivo poderoso para a adoção massiva por parte de empresas que já operam grandes fluxos de caixa. A reação do mercado foi imediata, com as ações da Circle registrando queda de 13% logo após o anúncio.
Embora o consórcio ainda não tenha revelado a blockchain que sustentará a OUSD, a escala da parceria sugere uma infraestrutura robusta. A competição, que já contava com iniciativas como a USDG da Paxos e o sistema The Clearing House dos grandes bancos americanos, ganha agora um novo patamar de complexidade com a entrada de players de tecnologia de consumo e gestão de ativos.
Tensões e implicações setoriais
Para reguladores e competidores, a OUSD representa um desafio à estabilidade e à transparência. A fragmentação do mercado de stablecoins, com a proliferação de ativos emitidos por consórcios, pode forçar uma nova rodada de exigências sobre reservas e governança. O impacto para o ecossistema brasileiro é indireto, mas relevante, visto que a adoção de stablecoins para pagamentos transfronteiriços é uma realidade crescente no setor de tecnologia e exportação de serviços.
O embate entre modelos centralizados e consórcios corporativos levanta questões sobre o futuro da liquidez digital. Se a OUSD conseguir atrair o volume necessário para desafiar a dominância do USDT e do USDC, a estrutura de taxas e a soberania sobre a infraestrutura de pagamentos globais poderão sofrer uma reconfiguração definitiva nos próximos anos.
Perspectivas de mercado
A eficácia da OUSD dependerá da rapidez com que as empresas participantes integrarão o ativo em seus fluxos de pagamento diários. A incerteza sobre a tecnologia de base, somada à resistência natural das líderes estabelecidas, sugere um período de transição competitivo. O sucesso desta empreitada definirá se as stablecoins serão, de fato, um ativo neutro ou um campo de batalha entre gigantes corporativas.
O mercado observará atentamente o volume de adoção inicial e como a Circle e a Tether ajustarão suas estratégias para conter a perda de relevância. A questão central permanece sobre a sustentabilidade do modelo de distribuição de rendimentos em um cenário de juros voláteis.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





