A mudança nos hábitos de consumo de alimentos na Espanha atingiu um ponto de inflexão com a substituição gradual dos tradicionais balcões de peixaria pelo modelo de autosserviço. O que antes era uma interação direta com o peixeiro, focada na escolha e no peso da peça inteira, tornou-se um processo de conveniência focado em bandejas prontas, limpas e fileteadas. Segundo reportagem do Xataka, essa transição, embora eficiente para o varejista, impõe um custo financeiro significativo ao consumidor final.

Uma análise recente realizada pela OCU (Organización de Consumidores y Usuarios) durante o mês de abril, em dez grandes redes de supermercados, aponta que o pescado fresco envasado pode ser até 30% mais caro do que o equivalente adquirido no balcão. O estudo, que considerou espécies de consumo frequente como dorada, lubina, merluza e salmão, destaca que o sobrepreço varia conforme o tipo de peixe e o nível de processamento exigido.

O impacto da conveniência no preço final

O fenômeno ganha contornos mais claros quando observamos movimentos estratégicos de grandes players do setor, como a Mercadona. A decisão de desativar balcões de atendimento em favor de produtos em bandejas não é apenas operacional; é uma mudança estrutural que altera o custo de aquisição. Para espécies menores como a dorada e a lubina, o sobrepreço do produto em bandeja pode chegar a 45% em comparação ao balcão — o pico mais elevado registrado pelo estudo da OCU.

Vale notar que a comparação não é trivial, pois o balcão vende a peça inteira — incluindo cabeça e espinhas —, enquanto a bandeja oferece o produto 100% comestível. Para equilibrar a conta, os técnicos utilizaram estimativas sobre a parte comestível do pescado, calculada entre 55% e 67%. Mesmo com esse ajuste, a diferença de preço permanece desfavorável ao consumidor que opta pela praticidade.

Dinâmicas de mercado e margens

O mecanismo por trás desse encarecimento reside nos custos de processamento e na estratégia de precificação dos supermercados. Enquanto a merluza e o salmão apresentam variações de preço menos acentuadas entre os dois canais, espécies que exigem maior manipulação para se tornarem "prontas para o consumo" carregam um prêmio de conveniência elevado. O varejo, nesse modelo, transfere o custo da mão de obra e do descarte inerentes ao processamento diretamente para o preço final da bandeja.

Além disso, a limitação de canais em certas redes — que optam por vender variedades específicas apenas em um formato — reduz a capacidade do consumidor de comparar valores reais por quilo. Essa assimetria de informação favorece o supermercado, que consegue diluir os custos logísticos e de embalagem sob o pretexto de oferecer um produto de conveniência superior, enquanto o consumidor perde a referência do custo real da proteína.

Implicações para o varejo e o consumidor

Essa tendência reflete uma tensão crescente entre a conveniência moderna e a economia doméstica. Reguladores e associações de consumidores observam com cautela o fechamento de balcões de atendimento, pois a medida reduz a diversidade de escolha e pressiona o preço da cesta básica. Para o ecossistema de varejo, o modelo de autosserviço é mais eficiente — reduz o desperdício de perecíveis e simplifica a operação logística —, mas o custo social dessa eficiência é suportado pelo cliente final.

No Brasil, onde o modelo de peixarias em supermercados ainda é comum, o fenômeno serve como um paralelo relevante. A automatização do varejo alimentar, caso siga o padrão europeu de eliminação do atendimento especializado, pode gerar um efeito inflacionário semelhante no preço das proteínas frescas, impactando diretamente o orçamento das famílias.

Perspectivas

O que permanece incerto é se a resistência do consumidor a preços mais altos será suficiente para frear a eliminação dos balcões. A conveniência, por vezes, mascara a percepção de custo, e a habituação ao modelo de bandeja pode tornar o sobrepreço uma nova norma de mercado. Observar a evolução dessa estratégia nas redes que ainda mantêm o modelo híbrido será fundamental para entender se o balcão de peixaria se tornará um diferencial competitivo ou uma raridade no varejo alimentar europeu. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka