Em um cenário de crescentes ataques às identidades queer, a busca por inspiração em narrativas ancestrais ganha um novo e profundo significado. A autora Ry Herman, em sua exploração de contos de fadas no verão de 2024, deparou-se com uma rica tradição de histórias que contêm não apenas subtexto, mas também texto explicitamente queer. Essa descoberta oferece um contraponto reconfortante à narrativa de invisibilidade, evidenciando que as identidades LGBTQ+ sempre existiram, mesmo nos textos mais antigos.
O fascínio de Herman pelos contos de fadas, que moldaram sua infância, a levou a investigar a presença de narrativas queer. Embora os contos mais populares, como Cinderela e Branca de Neve, tendam a ser heteronormativos e a perpetuar papéis de gênero rígidos, a autora estava certa de que algo mais existia. Sua pesquisa revelou a existência do tipo de conto ATU 514, conhecido como "A Mudança de Sexo", que segue um padrão recorrente: uma heroína se disfarça de homem, apaixona-se ou casa-se com outra mulher, e, ao final, é magicamente transformada em homem.
A tradição ancestral de narrativas queer
A tradição do tipo de conto ATU 514 remonta a milhares de anos, com exemplos como o mito grego "Iphis e Ianthe" e a história "A Filha de Alimbeg" das sagas Nart, da região do Cáucaso. Essas narrativas, muitas vezes interligadas por elementos comuns como animais falantes ou testes de masculinidade, sugerem uma origem única que se diversificou ao longo do tempo e das culturas. A variedade dentro desse arquétipo é notável, com heroínas enfrentando tarefas tão diversas quanto coletar impostos de cobras venenosas ou libertar uma mulher presa em uma avelã, demonstrando a natureza por vezes bizarra e imaginativa dos contos de fadas.
Herman inicialmente celebrou essas descobertas como "contos de fadas transpositivos", encontrando em histórias sérvias e finlandesas exemplos onde a transformação de gênero é desejada e realizada, por vezes com rituais peculiares ou de forma direta, como pagar uma bruxa. Algumas narrativas, como "Florinda" do Chile e "A História do Unicórnio" da Espanha, destacam-se por apresentar relacionamentos lésbicos que se desenvolvem antes da metamorfose final da protagonista, onde ambas as mulheres celebram a remoção do disfarce masculino.
Apropriação e apagamento queer nas reinterpretações
No entanto, uma análise mais aprofundada revelou que muitas dessas histórias sofreram apagamento queer ao longo dos séculos. Conforme os contos passaram por culturas e períodos menos receptivos à diversidade sexual e de gênero, a essência queer foi diluída ou subvertida. Em vez de uma busca voluntária pela transformação, ela frequentemente se torna uma imposição externa, como uma maldição, garantindo um final heteronormativo onde todos se encaixam em papéis tradicionais.
Herman questiona essa imposição, refletindo sobre a experiência de protagonistas não-binários. Sua própria jornada de autoconhecimento de gênero, espelhando a de sua personagem Jules em "This Knight Topples Empires", ocorreu em um tempo e lugar onde o conceito de não-binaridade era desconhecido. A autora argumenta que, assim como ela, Jules, em seu mundo de fantasia medieval, representa a presença contínua de pessoas não-binárias, que "sempre estiveram por perto", apesar da falta de terminologia ou reconhecimento.
A importância da representatividade em narrativas contemporâneas
A exploração de Herman sublinha a importância de reconhecer e valorizar as narrativas queer, mesmo quando elas foram marginalizadas ou reescritas. Em um contexto onde direitos e identidades LGBTQ+ enfrentam ataques renovados, a redescoberta dessas histórias ancestrais serve como um poderoso lembrete da resiliência e da longa história da comunidade queer.
A busca por inspiração em contos de fadas queer não é apenas um exercício acadêmico ou literário; é um ato de resistência e afirmação. Ao trazer à luz essas narrativas, Herman não apenas resgata histórias esquecidas, mas também fortalece a conexão com um passado que prova que a diversidade sempre foi parte da experiência humana, oferecendo um farol de esperança e pertencimento para as gerações presentes e futuras.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





