Pequenos negócios, de cafés a bibliotecas e salões de beleza, estão descobrindo uma nova forma de viralizar: rejeitando publicamente a inteligência artificial. Em um contramovimento à onipresença de pôsteres e anúncios gerados por ferramentas como o ChatGPT, a aposta em cartazes de papelão com mensagens escritas à mão tornou-se um inesperado selo de autenticidade, gerando engajamento massivo nas redes sociais.

A tendência, documentada em reportagem do site 404 Media, é uma resposta direta ao que foi apelidado de “pandemia de flyers de ChatGPT”. A facilidade de uso e o baixo custo da IA generativa inundaram o mercado com uma estética homogênea e impessoal. Agora, o pêndulo parece balançar na direção oposta: o esforço visível de um trabalho manual, antes visto como amador, é lido pelo consumidor como um sinal de cuidado e originalidade.

A fadiga do genérico

A rápida popularização da IA generativa no marketing seguiu um ciclo clássico de novas tecnologias: do espanto à saturação. O que há um ano era percebido como inovador, hoje corre o risco de ser associado a conteúdo de baixo esforço ou “AI slop”, como define a publicação. Nesse contexto, um simples cartaz com a frase “Não usaremos IA para promover nosso evento” funciona como um poderoso filtro, sinalizando uma identidade de marca que se recusa a ser apenas mais uma na multidão.

A leitura aqui não é uma negação da tecnologia, mas uma afirmação de posicionamento. Ao optar pelo analógico, essas empresas não estão apenas vendendo um produto, mas uma narrativa de autenticidade e toque humano. É a transformação do que seria uma limitação — a falta de recursos para design profissional — em um ativo de branding. O “mal feito” torna-se charmoso, o imperfeito vira pessoal.

Um contramovimento efêmero

Como aponta a própria reportagem original, a longevidade dessa tática é questionável. A eficácia do marketing anti-IA reside justamente em sua novidade e contraste. No momento em que a lousa e o marcador se tornarem o novo padrão do marketing de guerrilha, o diferencial se esvai e a busca por uma nova forma de distinção recomeça. A tendência, portanto, pode ter um prazo de validade curto.

O movimento, ainda que passageiro, oferece uma lição perene sobre branding e comunicação. A questão fundamental para qualquer negócio não é se deve ou não usar IA, mas como se diferenciar em um mercado ruidoso. Hoje, a diferenciação pode vir de um cartaz de papelão. Amanhã, pode ser um uso extremamente sofisticado e criativo da própria inteligência artificial que hoje é renegada. O jogo é o mesmo: capturar a atenção e construir uma conexão que o algoritmo, por si só, não consegue forjar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 404 Media