Por décadas, a contratação de energia elétrica no Brasil seguiu um modelo previsível, focado em definir volume, prazo e preço. Essa estrutura atendia a um sistema predominantemente centralizado e hidrotérmico, garantindo custos estáveis e suprimento para os consumidores. Contudo, a paisagem energética global e brasileira passou por uma revolução silenciosa, impulsionada pela ascensão das fontes renováveis, como solar e eólica. A matriz elétrica brasileira, cada vez mais diversificada, reflete essa mudança: em 2025, fontes renováveis já respondiam por 86,5% da capacidade instalada monitorada, totalizando 220,8 GW, segundo dados da CCEE. Paralelamente, a abertura do mercado livre, permitindo a escolha de fornecedores por consumidores do Grupo A desde 2024, ampliou a complexidade e a exposição a diferentes modelos de negociação. Essa nova dinâmica traz consigo riscos inerentes, como a diferença entre energia contratada e consumida, a demanda de potência e a volatilidade dos preços de curto prazo, conforme aponta um estudo da Universidade Federal do Ceará publicado na revista Electric Power Systems Research. O cenário internacional espelha essa tendência, embora com ressalvas. Relatórios como o da BloombergNEF indicam uma retração de 10% nos contratos corporativos de energia limpa em 2025, totalizando 55,9 GW, atribuída a preços elevados, aumento de custos e incertezas regulatórias. Essa complexidade crescente exige uma redefinição do que significa "contratar energia".
Contratos se reinventam para o novo cenário energético
A transformação do setor elétrico vai além da geração de energia; ela redefine a lógica das negociações. Gustavo Carvalho, Diretor de Estratégia e Desenvolvimento de Mercado da AXIA Energia, destaca que o foco dos contratos não se limita mais ao volume de energia. Em um sistema mais variável e granular, o perfil de entrega, o momento de disponibilidade, a flexibilidade, a confiabilidade e as necessidades específicas de cada consumidor tornam-se cruciais. "A contratação deixou de ser apenas uma decisão sobre volume. Em um sistema com maior variabilidade e granularidade, passa a importar não só quanta energia será entregue, mas quando, onde e com que grau de flexibilidade e confiabilidade", explica Carvalho. A sofisticação reside não na substituição de modelos, mas na combinação inteligente de produtos padronizados – que garantem liquidez e referência de preço – com estruturas customizadas, ajustadas às particularidades de cada cliente. Essa coexistência é vital para a modernização do setor, permitindo que contratos de longo prazo reflitam diferentes preferências e exposições ao risco, como apontado pela EPE em análises sobre a expansão do mercado livre.
Novos modelos ampliam as possibilidades de contratação
Diante da crescente complexidade do mercado, modelos de contratação mais sofisticados emergem para atender a diversos perfis de consumo e objetivos de negócio. Carvalho descreve essa evolução como a transição de "produtos isolados" para "soluções integradas". PPAs (Power Purchase Agreements), derivativos, diversas fontes de geração, armazenamento e atributos ambientais podem ser combinados para criar arquiteturas que ampliam a previsibilidade, oferecem flexibilidade e alocam riscos de forma mais eficiente. A escolha do modelo contratual ideal depende cada vez mais da estratégia empresarial. Consumidores com perfis distintos podem adotar estruturas variadas para equilibrar custos, segurança de suprimento, exposição ao mercado e metas de descarbonização. "Não existe uma solução universal. As alternativas podem ser combinadas de acordo com o perfil de consumo, os objetivos do cliente e sua disposição para assumir ou transferir riscos", afirma Carvalho.
Desafios persistentes na transição energética
A evolução contratual, embora essencial, não resolve isoladamente os desafios da transição energética. A expansão das renováveis exige investimentos correspondentes em transmissão, desenvolvimento da demanda e incorporação de recursos de flexibilidade e confiabilidade ao sistema. A resposta da demanda, por exemplo, um recurso ainda pouco explorado no Brasil, tem potencial para crescer significativamente nos próximos dez anos, segundo projeções da EPE. Operacionalmente, a gestão dos perfis horários de carga e geração, juntamente com restrições de infraestrutura, adiciona outra camada de complexidade. O "descompasso" entre a expansão acelerada de fontes eólica e solar e a evolução da transmissão, demanda e soluções de armazenamento, como aponta Carvalho, afeta a operação, a viabilidade econômica e os produtos disponíveis aos clientes. O fenômeno do "curtailment" – a redução da geração devido a limitações de transmissão ou excesso de oferta – é uma manifestação visível desse descompasso, evidenciando que o valor da energia está atrelado não só à quantidade, mas também ao local e momento de sua disponibilidade e sua capacidade de responder às necessidades do sistema. Isso leva empresas a considerarem, além de preço, volume e prazo, a compatibilidade de perfis, localização de ativos e exposição à volatilidade e ao curtailment, favorecendo soluções que combinam diversas fontes, armazenamento e instrumentos financeiros.
Lições internacionais para o mercado brasileiro
Os desafios enfrentados pelo Brasil não são únicos. Mercados que já passaram por expansão intensiva de renováveis desenvolveram sinais econômicos mais granulares, instrumentos de gestão de risco e ambientes de negociação mais líquidos e transparentes. Essa evolução permitiu refletir melhor o valor da energia em diferentes momentos e regiões, estimulando novos produtos e modelos de negócio. Carvalho ressalta a importância da granularidade temporal e locacional de preços, que cria incentivos para soluções como armazenamento e resposta da demanda. Mercados internacionais também contam com bolsas de energia que ampliam transparência e liquidez. No entanto, a experiência estrangeira deve ser adaptada à realidade brasileira. "A principal referência internacional não está em replicar um modelo específico, mas em construir sinais econômicos mais granulares e ambientes de negociação mais líquidos e transparentes. Quando os sinais de preço refletem melhor o valor da energia no tempo e no espaço, as variações do mercado orientam decisões de consumo, investimento e gestão de riscos, criando espaço para armazenamento, resposta da demanda, novos produtos e modelos de negócio", explica. A adaptação requer atenção às características físicas, regulatórias e institucionais do Sistema Interligado Nacional.
Em um setor elétrico em constante mutação, a AXIA Energia busca transformar as tendências globais e as demandas dos clientes em produtos e modelos de negócio escaláveis. A contratação moderna integra energia física, derivativos, flexibilidade, armazenamento e atributos ambientais em uma arquitetura que aloca riscos de forma eficiente, adaptada ao perfil de cada consumidor. Essa combinação, que pode envolver contratos de energia com perfis de geração solar complementados por instrumentos financeiros, exige cuidado na importação de soluções internacionais. "Observamos as experiências internacionais como um repertório de soluções, não como modelos prontos para replicação. O trabalho está em entender quais mecanismos criam valor e adaptá-los à realidade regulatória, operacional e comercial brasileira", conclui Carvalho. Os contratos, portanto, evoluem de meras transações de compra de energia para estruturas complexas de gestão de riscos, conectando as necessidades dos clientes às novas capacidades do sistema, combinando flexibilidade, gestão de riscos e sinais econômicos que sustentam novos produtos e investimentos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MIT Tech Review Brasil





