A Copa do Mundo de 2026, com início marcado para 11 de junho, traz consigo um desafio operacional de proporções globais. Segundo pesquisa realizada pela UKG, empresa especializada em gestão de força de trabalho, o evento deve gerar um prejuízo estimado em US$ 17 bilhões em produtividade para empresas ao redor do mundo. Somente nos Estados Unidos, o impacto financeiro é projetado em US$ 11,7 bilhões.

O levantamento, que ouviu 8.000 funcionários em diversos países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, revela que 37% dos trabalhadores pretendem alterar suas jornadas para acompanhar as partidas. O fenômeno expõe uma tensão crescente entre o engajamento cultural dos colaboradores e a necessidade de manutenção da eficiência operacional em organizações que dependem de escalas rígidas.

O desafio da gestão de escalas

O impacto da Copa do Mundo vai além de simples faltas ou atrasos. A natureza do evento, com 104 partidas distribuídas por 16 cidades-sede, cria um ambiente de incerteza para gestores de operações de linha de frente. Suresh Vittal, diretor de produto da UKG, observa que o torneio funciona como um teste prático de planejamento, onde a rigidez das escalas tradicionais pode resultar em falhas de execução e queda na qualidade do serviço.

Historicamente, eventos esportivos de grande escala sempre geraram flutuações na produtividade laboral. No entanto, a escala da edição de 2026, com 48 seleções e uma audiência global estimada em 5 bilhões de pessoas, eleva a complexidade do problema. A dificuldade reside em equilibrar a flexibilidade necessária para manter o moral da equipe com a necessidade de cobrir postos de trabalho essenciais durante o horário comercial.

Comportamento e o custo invisível

Os dados da pesquisa detalham comportamentos que afetam diretamente o desempenho individual. Cerca de 27% dos entrevistados admitem que planejam faltar ou chegar atrasados ao trabalho para assistir aos jogos. Além disso, 22% esperam comparecer aos seus postos em estado de exaustão, enquanto 11% admitem a possibilidade de estar sob efeito de ressacas decorrentes de festas de exibição. O streaming clandestino durante o expediente, planejado por 14% dos funcionários, completa o cenário de desvio de foco.

A análise dos incentivos revela que a rigidez das empresas pode ter um efeito colateral ainda mais danoso: a rotatividade. Quase 20% dos trabalhadores afirmam que considerariam buscar um novo emprego caso a empresa impeça ou dificulte a sua participação na experiência da Copa. Esse dado sugere que a gestão do torneio não é apenas uma questão de produtividade imediata, mas um fator determinante na retenção de talentos em um mercado competitivo.

Tensões entre flexibilidade e retenção

Para as empresas, o dilema é claro: punir o comportamento ou adaptar-se à realidade cultural? A tendência atual em setores mais flexíveis é a criação de espaços de convivência ou a permissão de horários alternativos para acompanhar os jogos. Contudo, em setores como varejo, saúde e manufatura, onde a presença física é indispensável, a margem de manobra é limitada, o que pode exacerbar o atrito entre liderança e liderados.

O risco de desmotivação é um subproduto direto de políticas excessivamente restritivas. Quando a empresa ignora um evento de relevância cultural global, a percepção de falta de alinhamento com os interesses do colaborador pode acelerar a busca por ambientes corporativos que ofereçam mais autonomia. A questão central, portanto, é como transformar um potencial custo de produtividade em uma oportunidade de engajamento organizacional.

O que observar

As cinco semanas de competição, até a final em 19 de julho, servirão como um laboratório para a gestão de recursos humanos. O comportamento dos funcionários diante das partidas decisivas indicará se as empresas conseguiram implementar modelos de planejamento ágil ou se o custo de produtividade superará as expectativas iniciais. A capacidade de comunicação transparente entre gestores e equipes será o diferencial.

O desfecho deste período de competição poderá redefinir as políticas de gestão de presença para futuros eventos globais. Resta saber se o impacto financeiro será visto como um custo inevitável de operação ou como uma falha de planejamento estratégico. A forma como as organizações absorverem esse choque de produtividade ditará as estratégias de gestão para as próximas edições de eventos de grande porte.

A Copa do Mundo de 2026 coloca em xeque a eficácia dos modelos tradicionais de gestão de força de trabalho, forçando as organizações a repensar a rigidez de seus processos. Com bilhões de dólares em jogo e a retenção de talentos no horizonte, a resposta das empresas ao torneio será um indicativo valioso de sua maturidade operacional e cultural.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company