A Copa do Mundo de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, traz um desafio operacional inesperado para as empresas globais. Segundo um levantamento realizado pela UKG, plataforma especializada em IA para gestão de RH e pessoal, o torneio tem potencial para retirar até US$ 17 bilhões em produtividade das organizações devido a mudanças no comportamento dos colaboradores durante o período de 11 de junho a 19 de julho.

A pesquisa, que ouviu 8.000 funcionários em oito países, revela que a paixão pelo futebol deve se traduzir em custos diretos para as companhias. Cerca de 37% dos trabalhadores entrevistados já planejam ajustar seus horários de trabalho para acompanhar as partidas, enquanto 27% admitem a possibilidade de faltas, atrasos ou saídas antecipadas durante o evento.

O impacto do presenteísmo e a cultura de trabalho

O fenômeno do "presenteísmo" ganha destaque especial neste cenário. A prática, em que o colaborador está fisicamente no escritório ou logado remotamente, mas com a atenção voltada para atividades alheias ao trabalho, deve afetar 14% dos funcionários que pretendem sintonizar os jogos secretamente. A situação se agrava com o registro de 11% dos entrevistados admitindo que poderiam trabalhar sob efeito de ressaca, comprometendo a qualidade das entregas.

Este comportamento reflete uma mudança estrutural na relação entre vida pessoal e obrigações profissionais. Em ambientes corporativos modernos, a rigidez de horários entra em conflito direto com eventos de alta relevância cultural. A UKG destaca que, quando o absenteísmo ocorre em escala, o efeito é sentido imediatamente na experiência do cliente e no moral das equipes que precisam cobrir as lacunas deixadas pelos colegas ausentes.

Dinâmicas de gestão sob pressão

O estudo revela que a atração pelo torneio não se limita aos subordinados, atingindo também a camada de liderança. Aproximadamente 42% dos gerentes indicaram a probabilidade de solicitar dias de folga, enquanto 45% admitem que podem buscar flexibilidade de última hora para assistir aos jogos. Essa configuração cria um dilema para os departamentos de RH, que precisam equilibrar a cultura de flexibilidade com a necessidade de manter a continuidade operacional.

A lógica de incentivos nas empresas está sendo testada. O torneio de 2026, com 48 seleções e 104 jogos, amplia o período de exposição ao entretenimento, tornando a gestão de pessoal um exercício de contingência. A expectativa é de que o custo financeiro seja mais acentuado nos Estados Unidos, com estimativa de US$ 11,7 bilhões em perdas, seguido pela Alemanha, com US$ 1,34 bilhão.

Tensões entre stakeholders e o mercado

Para os reguladores e gestores de pessoas, o desafio reside em como formalizar essa flexibilidade sem comprometer o output. Empresas que adotam uma postura proibitiva correm o risco de aumentar a frustração da força de trabalho, enquanto a permissividade total pode desorganizar fluxos críticos de produção. A tensão entre o engajamento do funcionário e a entrega de resultados é um dilema clássico, mas que agora ganha uma dimensão global e sincronizada pelo calendário esportivo.

No contexto brasileiro, embora o país não seja sede, a cultura de interrupção das atividades durante os jogos da seleção é um precedente histórico que impacta a demanda de energia e a produtividade industrial. O caso da Copa de 2026 serve como um lembrete de que a infraestrutura de RH precisa ser resiliente a eventos de massa que alteram o ritmo social, exigindo um planejamento que antecipe essas flutuações de comportamento.

O que observar daqui para frente

Permanece em aberto a capacidade das empresas de converter essa instabilidade em momentos de coesão interna. Algumas organizações podem optar por transmitir jogos em áreas comuns para mitigar o presenteísmo escondido, transformando o que seria uma perda de produtividade em uma ferramenta de retenção de talentos e engajamento.

O desfecho financeiro real dependerá da maturidade das lideranças em lidar com a imprevisibilidade. A observação dos próximos meses mostrará se o custo de US$ 17 bilhões será um dado consolidado ou se a flexibilização estratégica conseguirá neutralizar os impactos mais severos nas operações globais.

O equilíbrio entre a rigidez operacional e a flexibilidade cultural continua sendo a fronteira mais complexa a ser gerida pelas empresas modernas. Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney