Numa área equivalente a sessenta campos de futebol, uma pequena ilha na Galícia, Espanha, concentra uma biodiversidade fúngica que desafia a escala. A ilha de Cortegada, com suas 44 hectares, abriga um catálogo de quase 1.000 espécies de fungos, resultado de quinze anos de pesquisa da Universidade de Santiago de Compostela. O número, por si só, representa quase metade de todas as espécies já identificadas na Galícia inteira, uma região de três milhões de hectares.

Mais do que uma curiosidade estatística, a anomalia de Cortegada é uma lição sobre o valor do que permanece intocado. Segundo reportagem do site espanhol Xataka, a densidade de espécies na ilha é quase 500 vezes maior que a do New Forest, no Reino Unido, uma referência europeia em micologia. A explicação para essa riqueza não está no presente, mas em um passado geológico e humano muito particular.

Uma Arca de Noé botânica

A chave da extraordinária biodiversidade de Cortegada é sua floresta. A ilha abriga o maior bosque contínuo de laurissilva da Europa continental, um tipo de vegetação que dominava a paisagem na Era Terciária e foi praticamente extinta do continente durante as glaciações do Quaternário. Sobreviveu apenas em ilhas da Macaronésia (Açores, Canárias) e, por um capricho da geografia, neste pequeno ponto da Ría de Arousa.

Essa floresta-relíquia funciona como uma cápsula do tempo. Cada espécie de árvore antiga, como o loureiro, sustenta um ecossistema particular de fungos simbiontes e decompositores, muitos dos quais não são encontrados em nenhum outro lugar do continente. É um laboratório natural que já revelou sete espécies novas para a ciência, como a Calycina cortegadensis e a Xylaria polyphaga, batizadas em homenagem ao seu local de descoberta.

Uma história de quase-perdas

Se a geologia explica o potencial, a história humana explica a preservação. A biografia de Cortegada é uma sucessão de projetos abandonados que, por sorte, mantiveram o ecossistema intacto. No início do século XX, a ilha foi comprada por subscrição popular para ser presenteada ao rei Alfonso XIII como residência de verão. O monarca, no entanto, preferiu o Palácio de la Magdalena, em Santander, e Cortegada permaneceu intocada.

Décadas depois, em 1979, o perigo foi maior: vendida a uma incorporadora, a ilha esteve na iminência de ser conectada ao continente por uma ponte para dar lugar a uma urbanização de luxo. A reação popular foi imediata, e a pressão dos moradores não apenas barrou o projeto como garantiu a proteção da área, que culminou com sua integração ao Parque Nacional das Ilhas Atlânticas em 2002.

O que existe hoje em Cortegada é, portanto, um legado do acaso e da resistência. Um ecossistema de valor incalculável que sobreviveu a reis, vikings e à especulação imobiliária. A ilha serve como um lembrete de que a maior riqueza, por vezes, reside naquilo que a humanidade decide não construir, permitindo que a ciência descubra reinos inteiros sob nossos pés.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka