A agricultura moderna navega por um cenário que Brook Cunningham, vice-presidente sênior e presidente para a Ásia-Pacífico da Corteva Agriscience, descreve como um "novo normal". Este período é marcado por uma confluência de fatores desafiadores: restrições de crédito, instabilidade nas cadeias de produção, tensões geopolíticas e a imprevisibilidade climática. Durante um painel no Global Agribusiness Festival (GAF), em São Paulo, a executiva ressaltou que o futuro do setor não será moldado apenas por ideias que trazem conforto, mas por desafios que exigem soluções inovadoras e adaptáveis.

Inovação em um Cenário de Incertezas

Cunningham enfatizou que a inovação, aliada a políticas públicas eficazes e ferramentas financeiras aprimoradas, é fundamental para superar o ambiente atual. A Corteva, por exemplo, investe significativamente em pesquisa e desenvolvimento, com um pipeline de US$ 11 bilhões em químicos e biológicos. Contudo, a executiva aponta que a simples entrega de produtos no campo não é mais suficiente. O "novo normal" demanda uma abordagem integrada, que considere não apenas a produtividade, mas também a sustentabilidade e a resiliência. A pandemia, com seus efeitos na economia e o consequente aumento das taxas de juros, adicionou uma camada extra de complexidade, exigindo dos produtores uma capacidade de adaptação sem precedentes.

A Inteligência Artificial como Aliada no Campo

Um pilar central para enfrentar esses desafios, segundo Cunningham, é a inteligência artificial (IA). Embora ainda vista com certo receio, a IA tem um potencial transformador para o agronegócio. Guilherme Scheffer, sócio-diretor da Scheffer, exemplificou isso ao compartilhar a experiência de sua empresa, que testou um sistema de IA em 10% de sua área de plantio no Mato Grosso. Treinado com um vasto volume de dados — incluindo nutrição de plantas, análise de tecidos, hormônios, aminoácidos, genética e registros de solo —, o sistema auxiliou no manejo de 2,5 mil hectares. Os resultados foram expressivos: um ganho médio de produtividade de 10% nos talhões testados. Scheffer destacou que a IA é uma ferramenta em evolução, mas sua adoção é inevitável.

Desafios e Oportunidades para o Agronegócio

O caso da Scheffer demonstra o potencial da IA para otimizar decisões e aumentar a eficiência, processando camadas de informação inviáveis para uma análise humana. No entanto, essa transição levanta questões sobre a requalificação da mão de obra e o acesso à tecnologia por produtores de menor porte. A integração dessas ferramentas, portanto, deve ser acompanhada por políticas que garantam a democratização do acesso e o desenvolvimento de novas habilidades no campo.

O Caminho Adiante

O futuro da agricultura, como delineado por Cunningham, exige coragem para abraçar a inovação e a IA em um cenário incerto. A capacidade de adaptação, a busca por soluções não convencionais e a colaboração entre setor privado, governo e pesquisa serão determinantes para um agronegócio mais resiliente, produtivo e sustentável. A jornada será de aprendizado contínuo, calibrando ferramentas e estratégias para garantir que o setor prospere em um mundo em constante transformação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney