Credenciais de acesso, quando comprometidas, normalmente atraem atenção após uma invasão digital. No entanto, uma parte crucial desse risco é construída bem antes: quando uma conta preserva permissões que já não correspondem às responsabilidades reais de quem a utiliza. Nesses casos, um atacante encontra uma identidade válida com um alcance ampliado, o que potencializa drasticamente suas possibilidades de ação dentro da organização. O Data Breach Investigations Report (DBIR) 2026, da Verizon, indica que vulnerabilidades representam 31% dos vetores conhecidos de acesso inicial em violações de dados, enquanto o abuso de credenciais responde por 13%. Esses indicadores ajudam a entender como os criminosos entram nos sistemas, mas não revelam, sozinhos, o estrago que uma identidade comprometida pode fazer após a invasão.
Quando a entrada ocorre por meio de uma conta legítima, o impacto depende inteiramente dos privilégios associados a ela. Esse fato ganha um peso maior quando as permissões possuem níveis elevados e alcançam áreas sensíveis das companhias, ampliando as consequências do uso indevido para o negócio. Ao longo da trajetória profissional e das mudanças organizacionais, novas responsabilidades alteram as necessidades de cada colaborador e, portanto, exigem que as concessões anteriores sejam revistas. Esse acompanhamento ganha complexidade quando um mesmo perfil concentra permissões em diferentes sistemas e aplicações, já que nem todas as plataformas são atualizadas simultaneamente. Assim, o que fazia sentido em uma etapa da rotina ou função dentro da empresa acaba sendo mantido, mesmo após perder a relação com a função atual.
A fragilidade da governança de identidade
As auditorias periódicas ajudam a identificar parte dessas disparidades no controle das credenciais de acesso, mas registram apenas a fotografia de uma conta em um recorte específico de tempo. Entre um ciclo de checagem e outro, as dinâmicas de trabalho mudam. Se essa informação não chega a quem administra as credenciais, permissões obsoletas continuam ativas, mesmo sem sinais de uso suspeito. É exatamente nesse ponto que o acesso legítimo se transforma em risco. Nesse intervalo entre as revisões, a análise de comportamento humano também varia conforme os privilégios associados à identidade. Uma mesma ação pode representar níveis diferentes de exposição dependendo do alcance da conta. Por outro lado, um usuário pode manter acessos inadequados ao seu cargo atual sem apresentar qualquer sinal de comportamento inseguro.
O elo perdido entre RH e TI
Considerar essas duas dimensões — o privilégio associado e o comportamento do usuário — ajuda a entender tanto a forma como as credenciais são utilizadas dentro das organizações, quanto se elas ainda fazem sentido para o papel exercido pelo profissional. Quando as permissões deixam de refletir o escopo atual dos usuários, os próprios acessos passam a expor como a organização acompanha suas mudanças internas. A recorrência desse desencontro indica que alterações contratuais ou de rotina nem sempre produzem, no mesmo ritmo, a atualização dos perfis digitais. Uma mudança de cargo pode estar registrada no RH sem gerar efeito nos sistemas, ou uma permissão segue disponível simplesmente porque não está claro quem deveria decidir sobre sua continuidade.
Práticas para mitigar o risco
Para mitigar o risco de ataques cibernéticos baseados em credenciais mal controladas, as organizações devem focar no fortalecimento de suas políticas de governança de identidade. Isso envolve a automação do ciclo de vida dos acessos, a adoção do princípio do menor privilégio e o monitoramento contínuo do comportamento humano. Essas práticas, quando integradas, transformam a cibersegurança em um processo vivo, alinhando áreas de negócios e gestão de pessoas para construir um ambiente digital mais seguro.
Rumo a uma cultura de segurança contínua
Não basta simplesmente implementar revisões sistêmicas de forma mecânica; as empresas precisam pensar na criação de uma cultura de segurança contínua, de ponta a ponta, capacitando todos os colaboradores para que compreendam o real valor do controle de suas credenciais. Trazendo esse olhar do fator humano para o centro da estratégia da cibersegurança, o risco invisível tende a se dissipar, dando lugar a um ambiente corporativo mais resiliente, consciente e protegido. Natália Santos, gerente de Canais e Marketing da Beephish, ressalta a importância dessa abordagem integrada.
A necessidade de uma gestão de identidade robusta e adaptável é um desafio constante. A lacuna entre a realidade operacional e as permissões digitais pode ser explorada de maneiras sutis, exigindo vigilância e processos ágeis para garantir a segurança corporativa. A falha em manter essa sincronia não é apenas uma questão técnica, mas um reflexo da capacidade organizacional de gerenciar mudanças e riscos em um cenário digital em constante evolução.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





