O setor aéreo enfrenta um desafio financeiro estrutural para atingir as metas de descarbonização estabelecidas pela Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO). Segundo análise do MSCI Carbon Markets, o custo para compensar emissões através do programa Corsia pode atingir US$ 127 bilhões até 2035. Esse montante reflete a crescente pressão sobre as empresas para mitigar o impacto climático de voos internacionais, utilizando créditos de carbono como medida complementar à eficiência operacional e ao uso de combustíveis sustentáveis.
A tese central da MSCI reside na restrição da oferta de créditos elegíveis ao Corsia. À medida que a demanda aumenta, a escassez desses ativos pode impulsionar o preço da tonelada de CO2 para cerca de US$ 100 até 2035, um salto de quase oito vezes em relação aos patamares atuais. O cenário desenha um novo padrão de custo fixo para as companhias aéreas, transformando o passivo ambiental em uma variável crítica para a viabilidade financeira de longo prazo.
Dinâmicas de mercado e a oferta limitada
O mercado de carbono para a aviação não é homogêneo, e a elegibilidade dos créditos é o principal gargalo. O Corsia impõe critérios rigorosos para o que constitui uma compensação válida, limitando o universo de projetos que podem ser utilizados. Quando a oferta de créditos de alta qualidade não acompanha o crescimento da demanda global por viagens aéreas, a lei da escassez prevalece, elevando os preços de forma exponencial.
Além disso, o setor aéreo compete por esses mesmos créditos com outras indústrias que também buscam neutralizar suas emissões. Essa concorrência cross-setorial eleva a pressão sobre os preços, tornando o custo do carbono uma despesa cada vez mais relevante nos balanços corporativos. A transição energética, portanto, deixa de ser apenas uma questão de investimento em tecnologia de propulsão e passa a ser uma gestão ativa de portfólio de ativos ambientais.
Impacto nas margens e gigantes globais
A exposição ao custo do carbono varia significativamente conforme o perfil da malha aérea. Companhias que operam voos de longa distância, acima de seis horas, são as mais suscetíveis aos impactos financeiros. A MSCI projeta que a Emirates pode enfrentar despesas na ordem de US$ 8 bilhões, valor equivalente a um quinto de sua receita operacional prevista para 2025. Outros players como Qatar Airways e United Airlines também apresentam exposições bilionárias, testando a resiliência de seus modelos de negócio.
Esses custos não ocorrem no vácuo. Em regiões como a União Europeia, as empresas aéreas já lidam com a sobreposição de regulamentações, como o mercado regulado de carbono europeu (EU ETS). A BloombergNEF estima que o custo anual da transição climática na aviação europeia pode atingir US$ 48 bilhões em 2035, englobando gastos com SAF, compra de créditos e taxas regulatórias, criando um ambiente de custo operacional crescentemente complexo.
Implicações para o ecossistema global
A pressão financeira sobre as companhias aéreas levanta questões sobre a repasse de custos aos consumidores finais. Se o custo do carbono se tornar uma parcela significativa do preço das passagens, a demanda por viagens internacionais pode ser afetada. Reguladores, por sua vez, observam a necessidade de equilibrar metas ambientais ambiciosas com a manutenção da conectividade global e a competitividade do setor, que é essencial para o comércio internacional.
Para o mercado brasileiro e as companhias aéreas locais, a lição é clara: a descarbonização não será barata. A dependência de créditos de carbono internacionais e o desenvolvimento de uma cadeia local de SAF serão cruciais. A incerteza sobre a disponibilidade e o custo desses ativos no futuro reforça a necessidade de estratégias de longo prazo que priorizem a eficiência energética antes que a precificação do carbono atinja níveis proibitivos.
O horizonte de incertezas
O que permanece em aberto é a velocidade com que a oferta de créditos de carbono de alta qualidade conseguirá escalar para atender à demanda setorial. A eficácia dos mecanismos de mercado em incentivar projetos de remoção de carbono, em vez de apenas evitar emissões, será fundamental para definir o preço final do crédito.
Além disso, a evolução tecnológica dos combustíveis sustentáveis pode alterar o cálculo de custo-benefício. Se o preço do SAF cair mais rápido do que o esperado, a necessidade de compensação via créditos pode ser mitigada. Observar a correlação entre o preço do SAF e o custo do crédito de carbono será a chave para entender a estratégia financeira das aéreas na próxima década.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Capital Reset





