A escassez de habitação tornou-se o principal entrave para o desenvolvimento do tecido empresarial nas Ilhas Baleares, na Espanha. Segundo Inés Rotger, presidente da Associação Balear da Empresa Familiar (ABEF), os esforços contínuos das companhias para atrair e qualificar profissionais perdem a eficácia quando esses trabalhadores não conseguem arcar com os custos de moradia na região. A declaração reflete uma preocupação crescente entre líderes empresariais sobre como a infraestrutura básica impacta diretamente a viabilidade das operações no longo prazo.

Para Rotger, que está na metade de seu mandato à frente da ABEF, o problema é multifatorial e exige uma resposta coordenada entre o setor privado e as instituições públicas. A executiva, que integra a quarta geração do Grupo Rotger, ressalta que a iniciativa privada não pode ser a única responsável por solucionar desafios estruturais que vão além dos muros das empresas, como o custo de vida elevado que afasta talentos estratégicos do arquipélago.

O papel da empresa familiar como pilar econômico

A empresa familiar atua como a espinha dorsal da economia balear, representando cerca de 93% das empresas privadas da região. Historicamente, essas organizações se destacam pela resiliência e pela visão de longo prazo, fatores que permitiram a sobrevivência de muitas delas por décadas. Dados da Cátedra Banca March de Empresa Familiar indicam que estas companhias possuem uma taxa de sobrevivência superior à média nacional espanhola, com 75% delas operando há mais de dez anos.

Contudo, essa longevidade enfrenta agora uma pressão sem precedentes. A necessidade de digitalização, a exigência por práticas sustentáveis e a complexidade do relevo geracional criam um cenário de adaptação constante. Para Rotger, o sucesso dessas empresas reside na capacidade de profissionalizar a gestão sem abrir mão dos valores que as definem: o arraigo ao território e o compromisso com as pessoas que as integram.

Desafios na gestão de talentos e sucessão

A gestão de talentos tornou-se um desafio estratégico, exacerbado pela dificuldade de reter profissionais qualificados. Embora setores como a hotelaria e o comércio tenham implementado reajustes salariais significativos, a inflação do custo de vida, especialmente no setor imobiliário, neutraliza parte desses ganhos. A executiva defende que o relevo geracional não deve ser confundido com mera substituição, mas sim tratado como um processo de construção compartilhada entre diferentes gerações.

Além disso, a introdução da Inteligência Artificial nos processos internos impõe uma nova camada de complexidade. Rotger enfatiza que, independentemente da tecnologia adotada, o sucesso da empresa familiar depende de uma comunicação ágil e humana. O desafio, portanto, é integrar novas ferramentas sem descaracterizar a cultura organizacional, mantendo o alinhamento entre os membros da família e os demais colaboradores.

Tensões entre o global e o local

A crescente presença de franquias internacionais nas Ilhas Baleares levanta debates sobre a resiliência do comércio local. Para a ABEF, a globalização é um fenômeno irreversível, mas a empresa familiar mantém uma vantagem competitiva clara: o compromisso com a reinversão no território e o impacto social direto. A coexistência entre grandes marcas globais e negócios familiares é vista como um reflexo de uma economia aberta, desde que o valor gerado pelas empresas locais seja devidamente reconhecido.

No entanto, a pressão por resultados imediatos em um ambiente globalizado coloca as pequenas e médias empresas em uma posição vulnerável. A necessidade de adaptação permanente, somada a mudanças regulatórias frequentes, exige um suporte institucional que reduza a carga burocrática. A leitura é que o Estado deve atuar como facilitador, garantindo que o ecossistema empresarial não seja sufocado por exigências que ignoram a realidade das PMEs.

O futuro da liderança feminina e a resiliência

Um dado positivo observado na gestão atual é o aumento da participação feminina na liderança. Atualmente, 44,6% dos CEOs das empresas familiares associadas à ABEF são mulheres, um marco histórico que reflete mudanças culturais profundas. Esse movimento sugere que a diversidade nos órgãos de direção não é apenas uma tendência, mas uma necessidade para a inovação e continuidade dos negócios.

O horizonte para as empresas familiares nas Baleares permanece incerto, marcado pela volatilidade geopolítica e pela necessidade de navegar em um ambiente de constantes mudanças. A capacidade de transcender crises passadas serve como base para o otimismo, mas o foco agora está em consolidar uma associação mais forte e influente, capaz de representar os interesses das famílias empresárias diante de um futuro incerto.

A pergunta que resta para os próximos anos é se as políticas públicas conseguirão acompanhar a velocidade das transformações exigidas pelo mercado de trabalho. A sustentabilidade dos negócios locais dependerá, em última instância, da capacidade das ilhas em se tornarem lugares viáveis para se viver e trabalhar, equilibrando o crescimento econômico com a preservação da qualidade de vida que define a identidade da região.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España