O setor de construção civil brasileiro enfrenta um momento de divergência operacional, marcado pela pressão persistente dos custos e pela resiliência da demanda no segmento de baixa renda. Segundo relatório do BB Investimentos, a alta dos insumos e o ritmo mais lento de afrouxamento monetário têm impactado diretamente o desempenho das ações na bolsa, com o índice IMOB acumulando recuos sucessivos nos últimos meses.

O cenário é de cautela para os investidores, que observam o setor imobiliário apresentar um desempenho inferior ao Ibovespa. A análise sugere que, embora a demanda por imóveis continue existindo, a rentabilidade das companhias está sendo desafiada por fatores macroeconômicos globais e pela estrutura de financiamento habitacional, que ainda depende fortemente de fontes governamentais para manter o volume de vendas.

Pressão inflacionária nos canteiros

O principal vilão do momento é o INCC-M, que registrou uma alta de 1,04% em abril, acumulando 6,28% em doze meses. A pressão sobre os materiais de construção atingiu o maior patamar desde 2022, impulsionada por tensões geopolíticas que desorganizam as cadeias globais de suprimentos. Esse movimento encarece a produção e comprime as margens das incorporadoras, que encontram dificuldade em repassar integralmente os custos ao consumidor final.

Além dos materiais, a mão de obra segue como um fator de custo relevante, com alta acumulada de 8,71% no ano. A percepção do mercado é que o ciclo de queda dos juros, fundamental para baratear o crédito, está ocorrendo de forma mais lenta do que o previsto, o que eleva o custo de capital das empresas e inibe novos lançamentos em segmentos de maior valor agregado.

Segmento econômico como motor

Em contraste com as dificuldades no médio e alto padrão, o segmento de baixa renda mantém um ritmo de atividade robusto. Programas habitacionais, notadamente o Minha Casa, Minha Vida, funcionam como um colchão de segurança para o setor, sustentando tanto a geração de empregos quanto o volume de comercialização de unidades. Incorporadoras focadas nesse nicho, como Direcional e Cury, têm conseguido manter níveis elevados de vendas mesmo em um ambiente de restrição financeira.

Vale notar que empresas historicamente voltadas para o público de maior renda, como Cyrela e Eztec, estão ajustando suas estratégias e ampliando a presença no segmento econômico. Esse movimento indica uma busca por volume e previsibilidade de caixa, uma vez que a demanda por imóveis de luxo demonstra maior sensibilidade às variações das taxas de juros e à incerteza econômica.

O gargalo do financiamento

O mercado de crédito imobiliário vive um momento de transição. Embora a poupança SBPE tenha registrado captação positiva em abril, o saldo real ainda apresenta queda, refletindo a dificuldade das famílias em manter depósitos em um cenário de renda pressionada. As contratações via SBPE seguem em trajetória de declínio, evidenciando que o funding tradicional do setor imobiliário ainda não recuperou a força necessária para financiar um ciclo de expansão robusto.

Por outro lado, o FGTS consolidou-se como a principal fonte de liquidez para o setor, com arrecadação recorde. A dependência crescente desse recurso sugere que a viabilidade de muitos projetos imobiliários está atrelada à sustentabilidade das políticas públicas de habitação, criando uma dependência estrutural que merece atenção de longo prazo por parte dos reguladores e das próprias empresas.

Perspectivas e incertezas

O futuro próximo do setor dependerá da estabilização dos custos de materiais e da trajetória definitiva da política monetária. A grande questão é se o mercado de média e alta renda conseguirá retomar volumes de lançamento sem uma redução mais expressiva nos juros, ou se o setor ficará permanentemente concentrado na baixa renda.

O investidor deve monitorar a capacidade das construtoras em manter a geração de caixa operacional enquanto navegam pela volatilidade dos custos. A resiliência demonstrada até aqui indica uma maturidade maior das empresas, mas o ambiente macroeconômico permanece como o principal determinante para a rentabilidade do setor nos próximos trimestres.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times