O Banco Central Europeu (BCE) abriu uma consulta pública para decidir o futuro design das notas de euro, e uma das propostas mais notáveis pode colocar Leonardo da Vinci na cédula de €100. Segundo reportagem da ARTnews, esta é a primeira grande reformulação visual da moeda desde seu lançamento, em 2002. A iniciativa faz parte de um esforço para renovar a identidade de um dos mais tangíveis símbolos da união do continente.
Até hoje, o euro operou sob uma lógica de estrita neutralidade simbólica. As pontes e janelas que ilustram as notas atuais são estruturas fictícias, desenhadas para representar conexão e abertura sem remeter a nenhum monumento ou país específico. Foi uma solução de design que refletia a necessidade política de evitar favoritismos na frágil arquitetura da União Europeia em seus primórdios.
Do neutro ao icônico
A proposta de incluir ícones culturais como da Vinci, o compositor Ludwig van Beethoven e a cantora de ópera Maria Callas é, portanto, um pivô estratégico. A presidente do BCE, Christine Lagarde, afirma que o objetivo é "reforçar nossa identidade compartilhada". A escolha de Leonardo é particularmente astuta: um gênio italiano cuja obra e influência transcenderam fronteiras, tornando-se um símbolo universal da Renascença e da inovação europeia, muito antes da formalização do bloco.
A mudança de curso não é trivial. Ela sugere que, após mais de duas décadas de união monetária, os líderes europeus sentem a necessidade de ancorar o projeto em algo mais profundo que a mera conveniência econômica. Em um cenário de tensões geopolíticas e ressurgimento de nacionalismos, a cultura surge como um possível cimento para uma identidade continental que ainda parece em construção.
Um plebiscito simbólico
Ao convidar o público a opinar até 2026, o BCE transforma uma decisão de design em uma espécie de plebiscito sobre o que significa ser europeu hoje. A outra temática finalista, "Rios e Pássaros", representa um caminho mais seguro e ecológico, evocando uma identidade natural e menos controversa. A verdadeira tensão, contudo, está na escolha de abraçar ou não figuras humanas e suas narrativas históricas.
A decisão final, que combinará o voto popular com análises técnicas e de um júri independente, será mais do que uma escolha estética. Ela servirá como um termômetro para medir a confiança do bloco em uma narrativa cultural unificada. O conteúdo das carteiras europeias poderá, em breve, dizer muito sobre a autopercepção e as ambições do projeto continental para as próximas décadas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





