Cinco anos após sua fundação, a Daki atingiu um ponto de inflexão operacional. A startup, que se notabilizou pelo modelo de entregas ultrarrápidas com estoque próprio, reporta agora uma receita anualizada próxima de R$ 1 bilhão, mantendo um ritmo de crescimento superior a 50% ao ano. Segundo o CEO Rafael Vasto, a empresa consolidou um modelo de negócio escalável, com tempos de entrega inferiores a 15 minutos, e prepara-se agora para uma nova fase de expansão geográfica.

O cenário atual da Daki é marcado pela busca por novos mercados, após um longo período de foco exclusivo no Sudeste brasileiro. Embora a companhia ainda não tenha detalhado prazos ou praças específicas, a diretoria confirma que a expansão está no centro das discussões com investidores. A estratégia visa capturar uma fatia maior de um mercado de supermercados que, apesar da digitalização, ainda apresenta uma predominância massiva de compras em lojas físicas.

O modelo de operação própria

A resiliência da Daki em um segmento que viu diversos competidores recuarem ou encerrarem operações reside na decisão estratégica de controlar toda a cadeia logística. Ao contrário de modelos puramente de marketplace, a Daki optou desde o início por manter estoques próprios, o que garante maior previsibilidade sobre o sortimento e a qualidade do serviço. Essa disciplina operacional foi o que permitiu à empresa navegar os desafios de escalabilidade que levaram outros players a reestruturar suas operações no Brasil.

Historicamente, o setor de delivery de supermercados online enfrentou dificuldades para equilibrar a conveniência extrema com a rentabilidade por pedido. A Daki, ao focar na integração vertical, conseguiu construir um playbook que, segundo a liderança, permite entregar pedidos rentáveis enquanto mantém a satisfação do cliente em patamares elevados. A empresa sustenta que essa visão estrutural foi o diferencial necessário para sobreviver às oscilações do mercado de tecnologia nos últimos anos.

A parceria estratégica com o iFood

A entrada do iFood no captable da startup, anunciada em maio, formalizou uma colaboração operacional que já estava em curso desde 2024. Com uma participação minoritária inferior a 5%, o iFood reforça a validade do modelo da Daki sem, contudo, alterar sua independência estratégica. O aporte funciona mais como uma sinalização de mercado sobre o potencial do segmento do que como uma integração forçada, dado que a maioria das vendas ainda ocorre nos canais proprietários da Daki.

Para o ecossistema, o movimento sugere que o iFood busca manter uma presença qualificada em categorias onde a entrega rápida de itens essenciais é o diferencial competitivo. A Daki, por sua vez, beneficia-se da chancela de um player dominante enquanto mantém o controle total sobre sua base de dados e a jornada do consumidor final, elementos cruciais para a personalização de ofertas e a eficiência logística.

IA como motor de produtividade

A tecnologia de inteligência artificial na Daki não é uma adição recente, mas um pilar estrutural desde a fundação da companhia. A empresa utiliza IA tanto na interface com o consumidor — através de recomendações personalizadas no checkout — quanto na retaguarda, automatizando a reconciliação de dados fiscais e a gestão de estoques. A capacidade de processar dados em tempo real permite uma tomada de decisão granular, essencial para quem opera com prazos de entrega tão curtos.

Essa maturidade tecnológica posiciona a Daki como uma empresa nativa de IA, o que facilita a adaptação às novas demandas do varejo. A automação das atividades operacionais permite que a equipe se concentre na expansão da proposta de valor, enquanto os agentes de software gerenciam a complexidade logística. A leitura aqui é que a tecnologia atua como o multiplicador de força necessário para sustentar o crescimento sem aumentar linearmente os custos fixos.

O papel do Clube Daki

Além da expansão geográfica, a fidelização aparece como a próxima fronteira para a sustentabilidade do negócio. O Clube Daki, programa que oferece entregas gratuitas e benefícios recorrentes, já responde por mais de 10% das compras da plataforma. Em um setor onde a recorrência é o principal motor de valor, incentivar o hábito de consumo através de assinaturas torna-se uma estratégia defensiva e de crescimento fundamental.

O futuro da companhia dependerá de como ela conseguirá equilibrar a agressividade da expansão nacional com a manutenção da eficiência operacional demonstrada no Sudeste. A capacidade de replicar o modelo em mercados com dinâmicas logísticas distintas será o principal teste para a gestão de Rafael Vasto. Observar como a empresa integrará novos clientes ao seu clube de fidelidade, mantendo a rentabilidade, será o próximo indicador de sucesso para o setor de quick-commerce no Brasil.

Com reportagem de Brazil Valley

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