A jornada de uma startup tradicionalmente começa com a identificação de uma lacuna no mercado, seguida por um refinamento obsessivo do conceito e da apresentação. O objetivo final é atingir o product-market fit, mas, na prática, isso muitas vezes força os fundadores a se concentrarem em um nicho estreito, dedicando anos a provar a viabilidade financeira e escalabilidade de sua ideia. A visão grandiosa, que poderia transformar uma indústria inteira, fica em segundo plano. Para Daniel Kjellén, CEO e cofundador da Freda, essa abordagem de "produto mínimo viável" (MVP) não é adequada para todos os desafios.

Após a venda de sua primeira empresa, a Tink, para a Visa por €1,8 bilhão em 2022, Kjellén e seu cofundador Fredrik Hedberg se viram em uma posição privilegiada. Com capital próprio substancial e a experiência de uma saída bem-sucedida, eles decidiram encarar um problema que consideram intratável para abordagens fragmentadas: o compliance. A experiência na Tink, que escalou para 700 pessoas operando sob diversas regulamentações europeias, ensinou a Kjellén a frustração de lidar com "pequenos ajustes de redação", revisões que se arrastavam por meses e uma incerteza constante que impedia a iteração rápida e ousada. Ele compara a complexidade do compliance a lutar contra a Hidra: resolver o problema de forma incremental é uma missão impossível, pois a solução de um aspecto gera novos desafios em outro.

A Necessidade de um "Produto Máximo Viável"

A leitura aqui é que problemas intrinsecamente complexos e interconectados, como o de compliance, não podem ser resolvidos com um MVP. A natureza do compliance — onde obrigações dependem de inúmeros fatores dispersos por diferentes departamentos de uma empresa, como jurídico, regulatório, de produto e de políticas — exige uma solução holística desde o início. Tentar resolver apenas uma "cabeça" da Hidra não altera o quadro geral.

Kjellén argumenta que o que se faz necessário, nesses casos, é um "produto máximo viável" — ou maximum viable product (MxVP) — desde o primeiro dia. Essa abordagem reconhece a complexidade inerente e busca construir uma solução abrangente que, embora possa ser iterada, já endereça a totalidade do problema, em contraste direto com a lógica do MVP tradicional.

A Diferença da Segunda Tentativa

Kjellén destaca que fundadores experientes, após um primeiro sucesso, estão em uma posição única para perseguir tais ambições. A credibilidade adquirida com uma saída bem-sucedida abre portas para talentos, parceiros e investidores que não estavam acessíveis na primeira empreitada. A experiência acumulada permite trazer "todas as lições do que deu certo e do que deu errado", criando um "vento de cauda" favorável. Mais importante, o capital próprio ou o acesso facilitado a investimentos permite financiar a "construção completa" sem a pressão de investidores para "encolher a ideia" antes mesmo de testá-la. Essa liberdade é crucial para equipes que visam resolver problemas de larga escala.

O Papel Transformador da IA

O que antes exigiria centenas de pessoas de diversas formações e muitos anos de desenvolvimento, hoje pode ser acelerado significativamente pela Inteligência Artificial. Kjellén aponta que os modelos de linguagem (LLMs) transformaram a capacidade de construir soluções amplas. A Freda, por exemplo, conta com uma equipe de 22 pessoas e lança produtos em uma velocidade que ele "só poderia ter sonhado" na época da Tink. Essa aceleração, combinada com a resiliência e a visão de longo prazo que vêm com anos de empreendedorismo, posiciona fundadores como Kjellén para "ficar firme e construir sua maior visão ainda". A IA não apenas permite a escala técnica, mas também a agilidade necessária para competir e inovar em mercados complexos.

Perguntas em Aberto e o Futuro

A abordagem de Kjellén levanta questões importantes sobre a evolução do ecossistema de startups. Será que veremos uma mudança no padrão de investimento, favorecendo fundadores experientes que buscam resolver problemas complexos com soluções completas desde o início, em vez de apostar em MVPs? A capacidade da IA de reduzir a necessidade de equipes massivas e acelerar o desenvolvimento pode redefinir o que é considerado viável para uma startup.

A busca pelo MxVP para desafios de compliance, impulsionada pela IA e pela experiência de fundadores como Daniel Kjellén, sinaliza uma nova era para startups. A capacidade de enfrentar problemas complexos de frente, sem diluir a visão inicial, pode ser o diferencial decisivo em mercados cada vez mais regulados e competitivos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Crunchbase News