A coleção de alta costura outono/inverno 2026-27 da Schiaparelli marca uma mudança fundamental na abordagem criativa de Daniel Roseberry. Após uma imersão nas obras de Antoni Gaudí em Barcelona, o diretor criativo da maison buscou traduzir as formas orgânicas e a engenharia estrutural do arquiteto catalão para o vestuário, substituindo tecidos convencionais como seda e cetim por materiais sintéticos inovadores, incluindo silicone e látex.
Segundo reportagem da Designboom, o projeto, batizado de 'The Call of the Void', não se limita a uma referência estética, mas propõe uma reflexão sobre a construção de volumes no corpo humano. Roseberry utiliza técnicas de alta costura para emular os mosaicos 'trencadís' e as geometrias fluidas que definem a identidade visual das construções de Gaudí, elevando a moda ao patamar de pensamento arquitetônico.
A materialidade como estrutura
O diálogo entre Roseberry e o legado de Gaudí manifesta-se principalmente na experimentação de materiais. O uso de silicone moldado e chapas de tinta cozida atua como uma releitura das superfícies cerâmicas do arquiteto, onde a textura deixa de ser um detalhe decorativo para tornar-se a própria estrutura da peça. Essa transição reflete uma disposição em elevar métodos construtivos não convencionais a formas expressivas.
Ao tratar a natureza como um modelo estrutural — e não meramente como inspiração visual —, a coleção estabelece uma linguagem compartilhada. Elementos que remetem à vida marinha e à botânica, como acessórios em forma de anêmonas e aplicações que mimetizam escamas de peixe, reforçam a conexão com a organicidade que permeia tanto os edifícios modernistas quanto as novas silhuetas da grife.
Desconstrução dos códigos da maison
Roseberry utiliza a influência arquitetônica para questionar os próprios códigos da Schiaparelli. A icônica jaqueta da casa foi reimaginada como um elemento escultórico, desafiando a simetria rígida tradicional em favor de formas que emolduram o corpo de maneira dinâmica. Esse movimento sugere um esforço deliberado em reinventar formas familiares, alinhando-se à crença de Elsa Schiaparelli na constante evolução do design.
A paleta de cores, que transita entre tons de rosa lagosta, açafrão, hortelã e violeta, evoca ecossistemas costeiros, consolidando a narrativa de integração entre o ambiente natural e a construção humana. O resultado é uma série de peças que funcionam como extensões arquitetônicas, onde a fronteira entre moda e design de interiores torna-se cada vez mais tênue.
Implicações para o design contemporâneo
A transposição de técnicas arquitetônicas para a moda de luxo levanta questões sobre o futuro da manufatura têxtil. Ao priorizar materiais como o silicone, a Schiaparelli sinaliza uma possível mudança no paradigma da alta costura, onde a durabilidade e a maleabilidade de polímeros passam a rivalizar com a nobreza dos tecidos tradicionais, forçando o mercado a reavaliar o conceito de 'luxo'.
Para o ecossistema de design, esse movimento exemplifica a crescente hibridização das disciplinas criativas. A moda, ao se apropriar do rigor estrutural da arquitetura, ganha novas possibilidades de volume e forma, enquanto a arquitetura encontra na alta costura um campo fértil para a experimentação estética em escala humana.
O horizonte da experimentação
Permanece incerto se a adoção de materiais sintéticos por uma casa de alta costura será uma tendência duradoura ou um exercício pontual de estilo. A aceitação desse novo vocabulário pelo público e pelos colecionadores de arte será o principal termômetro para a continuidade dessa abordagem.
O que se observa é uma disposição em romper com a inércia criativa, utilizando referências históricas como ponto de partida para inovações técnicas. Resta acompanhar como outras grifes responderão a essa busca por novos fundamentos estruturais no design de moda.
A intersecção entre o rigor de Gaudí e a liberdade da alta costura de Roseberry sugere que o futuro do design de luxo pode estar menos ligado à tradição têxtil e mais conectado à engenharia de formas. A moda, em sua busca constante por relevância, parece encontrar na arquitetura o suporte necessário para desafiar a percepção do que pode ser vestido. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





