A infraestrutura digital brasileira atravessa uma mudança de paradigma que transcende o software para se consolidar no setor imobiliário. Segundo o Relatório Setorial 2025 da Brasscom, o país deve atrair R$ 2 trilhões em aportes tecnológicos entre 2026 e 2029, com o maior volume concentrado em computação em nuvem e inteligência artificial. Esse montante bilionário sinaliza que, por trás de cada modelo de linguagem ou serviço em nuvem, existe uma necessidade crescente por ativos imobiliários altamente especializados.
O Brasil já detém 48% da capacidade instalada de data centers na América Latina, conforme dados da JLL. A liderança regional, contudo, começa a pressionar a oferta de terrenos e galpões capazes de atender às exigências técnicas de alta voltagem, refrigeração e conectividade. A tendência de mercado é clara: o data center deixou de ser um componente periférico de TI para se tornar a espinha dorsal de uma nova classe de ativos imobiliários corporativos.
O novo perfil do ativo imobiliário
A construção de um data center moderno exige muito mais do que apenas espaço físico. Diferente de galpões logísticos tradicionais, essas estruturas demandam redundância elétrica, proximidade com redes de fibra óptica e sistemas de refrigeração de alta performance. A complexidade do licenciamento e a necessidade de energia em larga escala transformam terrenos em ativos de valor estratégico, muitas vezes escassos em grandes metrópoles.
Especialistas do setor, como Renato Monteiro da Sort Investimentos, apontam que o data center é a tradução física da economia digital. A escolha da localização, portanto, torna-se um exercício de engenharia e logística, onde a proximidade com mercados consumidores e hubs de conexão internacional dita a viabilidade do projeto. Não se trata apenas de construir, mas de integrar infraestrutura elétrica e digital em um único ativo imobiliário.
A geografia da infraestrutura digital
A concentração de data centers no Brasil ainda segue um padrão de polos estratégicos, com destaque para Barueri, Alphaville e Campinas. Essas regiões, consolidadas como centros de processamento de dados, oferecem a estabilidade necessária para operações críticas. A infraestrutura de cabos submarinos, por sua vez, eleva Fortaleza ao patamar de hub internacional, consolidando a capital cearense como um ponto de ancoragem vital para o tráfego de dados global.
No entanto, a pressão por expansão está forçando o mercado a olhar para outras regiões. O Sul do país, por exemplo, começa a ganhar relevância no radar de investidores que buscam diversificar a base geográfica de seus ativos. A leitura é que, à medida que a demanda por IA cresce, a descentralização dos data centers se tornará uma necessidade operacional para garantir a resiliência das redes.
Tensões entre demanda e sustentabilidade
O grande desafio que se impõe para os stakeholders é o equilíbrio entre a sede por processamento e a disponibilidade de infraestrutura energética. Operadores globais enxergam no Brasil uma vantagem competitiva pela oferta de energia renovável, mas a infraestrutura de transmissão precisa acompanhar o ritmo de crescimento do setor de TI. Reguladores e concessionárias de energia estão, portanto, no centro dessa equação de viabilidade.
Para o mercado imobiliário, essa demanda representa uma frente de desenvolvimento perene. Diferente de ciclos especulativos, a dependência de governos e empresas por serviços de nuvem e IA cria uma base sólida de ocupação. O desafio para os incorporadores será manter a flexibilidade necessária para atualizar as instalações conforme a evolução tecnológica exigir novas arquiteturas de hardware.
O futuro dos centros de dados
O que permanece em aberto é a capacidade do mercado brasileiro de escalar essa infraestrutura sem comprometer a eficiência operacional. A rapidez com que a tecnologia evolui impõe um ritmo de adaptação que, por vezes, supera a velocidade de entrega de novos empreendimentos imobiliários de grande porte.
A observação dos próximos anos deve se concentrar em como os grandes players do setor imobiliário irão gerir a transição entre o modelo de galpões logísticos comuns e a especialização em data centers. A disputa por terrenos estratégicos com acesso a energia de alta capacidade promete definir os novos líderes desse mercado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





