O cenário geopolítico instável no Oriente Médio, com conflitos persistentes e preços de combustíveis em alta, impõe um freio geral ao mercado de fusões e aquisições no setor de energia. Vendedores buscam valores inflados, enquanto compradores adotam uma visão mais conservadora e de longo prazo, dificultando o fechamento de negócios. A exceção notável a essa tendência é o setor de midstream – essencialmente as redes de dutos, sistemas de captação e processamento que transportam petróleo e gás desde os poços até refinarias, usinas ou terminais de exportação de gás natural liquefeito (GNL).

“O midstream tem sido bastante movimentado”, afirma Andrew Dittmar, analista principal da Enverus Intelligence Research. “Há uma demanda enorme por infraestrutura neste momento, particularmente no lado do [gás] natural, à medida que remodelamos o mercado de gás dos EUA com a demanda de GNL entrando em operação na Costa do Golfo e o aumento da demanda por data centers.” Este aquecimento nas transações de dutos recebeu um impulso adicional com a introdução no Senado de um projeto de lei bipartidário para reforma de licenciamento de infraestrutura, que pode ganhar força legislativa até o fim do ano. Tal legislação beneficiaria a exploração energética de forma abrangente, acelerando a aprovação de dutos de petróleo e gás, bem como projetos de energia eólica, solar e de transmissão elétrica que enfrentaram oposição.

O boom dos negócios de midstream

A demanda por centros de dados, impulsionada pela inteligência artificial, está se tornando um motor significativo para o consumo de energia. A necessidade de processamento intensivo requer infraestrutura energética robusta e confiável, o que, por sua vez, estimula investimentos em dutos e sistemas de transporte de gás e petróleo. Essa convergência de fatores tem levado a uma onda de transações no setor de midstream. Recentemente, a ONEOK, sediada em Tulsa, adquiriu os ativos da Brazos Midstream no Permian Basin por US$ 4,42 bilhões. Pouco antes, a gigante de dutos Williams comprou a Momentum Midstream por US$ 5,5 bilhões, e a Western Midstream pagou US$ 1,6 bilhão por instalações da Brazos na Delaware Basin. Esses negócios refletem uma estratégia de consolidação, onde grandes empresas públicas adquirem ativos de empresas menores, muitas vezes de fundos de private equity, para expandir sua escala e alcance.

Consolidação e apetite por aquisições

“O mercado favorece sistemas de midstream maiores e integrados, e continuaremos a ver alguns dos players menores, especialmente do lado privado, sendo incorporados em meio a um considerável apetite de aquisição por parte das grandes empresas”, observa Dittmar. No segmento de petróleo, a Enbridge comprou os ativos de petróleo bruto da Tallgrass Energy por US$ 2,55 bilhões, enquanto a Plains All American Pipeline adquiriu a Silver Creek Midstream por US$ 585 milhões. Esses movimentos indicam uma clara tendência de consolidação, com empresas buscando otimizar operações e ganhar eficiência em um mercado cada vez mais competitivo. A venda de ativos por fundos de private equity para empresas públicas demonstra um ciclo de desinvestimento e reinvestimento, onde o capital busca novas oportunidades.

O setor upstream e o interesse internacional

No segmento de produção de petróleo e gás (upstream), a atividade tem sido menos frenética. Um dos negócios mais notáveis foi a aquisição da Coterra Energy pela Devon Energy por US$ 26,5 bilhões, ocorrida pouco antes do início do conflito no Irã. Mais recentemente, a Magnolia Oil & Gas comprou ativos na Eagle Ford Shale por US$ 4 bilhões. A Devon Energy, por sua vez, busca vender parte de seus próprios ativos na Eagle Ford para reduzir a dívida contraída na aquisição da Coterra. O interesse de grandes players globais, como a BP, em ativos onshore nos EUA, mesmo em um cenário de escassez de inventário, ressalta a competitividade e atratividade das oportunidades no país. O movimento de capital internacional para os EUA contrasta com a busca de empresas americanas por expansão no exterior, à medida que o setor de shale nos EUA amadurece.

Perguntas em aberto e o futuro da infraestrutura

A crescente demanda por energia para suportar o boom da IA e a expansão dos centros de dados levanta questões sobre a sustentabilidade e a velocidade de desenvolvimento da infraestrutura necessária. A reforma do licenciamento de infraestrutura pode ser um fator crucial para acelerar esses projetos, mas sua aprovação e implementação efetiva ainda são incertas. Será que a agilidade regulatória será suficiente para acompanhar o ritmo da demanda tecnológica? Além disso, a dinâmica de capital internacional entrando nos EUA enquanto capital americano busca oportunidades no exterior sugere um reequilíbrio global no setor energético. A capacidade do mercado de midstream de atender a essa demanda crescente, mantendo a atratividade para investidores e compradores, será fundamental para o futuro.

A atividade intensa no setor de midstream, impulsionada pela demanda de IA e GNL, sinaliza um período de consolidação e oportunidades. A convergência de tecnologia e energia molda o cenário de M&A, com os olhos voltados para a capacidade de infraestrutura de suportar o crescimento futuro. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune