Demis Hassabis, o cofundador e CEO que personificava a excelência científica da DeepMind, está se afastando do comando diário da mais célebre unidade de inteligência artificial do Google. Ele assumirá uma nova posição de "chair", cedendo o controle operacional ao CTO Koray Kavukcuoglu, que agora se reportará diretamente a Sundar Pichai. A mudança foi seguida pela notícia da saída do cientista-chefe Jeff Dean.

Longe de ser uma mera troca de cadeiras, o movimento expõe uma crise de identidade na DeepMind, segundo reportagem da revista Fortune. A reorganização acontece em um ano difícil, marcado por atrasos em produtos-chave e uma percepção crescente de que a empresa está perdendo terreno na corrida da IA generativa para rivais mais ágeis como OpenAI, Anthropic e até mesmo Meta.

Fuga de cérebros e poder

O sintoma mais agudo da crise é uma notável fuga de talentos. Em uma única semana de junho, a DeepMind perdeu Noam Shazeer, um dos líderes do projeto Gemini, para a OpenAI, e John Jumper, co-criador do revolucionário AlphaFold, para a Anthropic, que também atraiu outros dois veteranos do mesmo projeto. A saída de figuras tão centrais não é trivial.

Engenheiros ouvidos pela publicação culpam a agressividade de rivais capitalizados, a frustração por ver os modelos do Google ficarem para trás em benchmarks de performance e a busca por equity em startups com potencial de IPO. Internamente, há o temor de que o afastamento de Hassabis acelere uma centralização de poder em Mountain View, erodindo a autonomia de pesquisa que sempre foi a marca registrada do laboratório fundado em Londres.

A corrida pela liderança

Os problemas não são apenas de pessoal. O Gemini 3.5 Pro, anunciado com grande expectativa, já estourou três prazos de lançamento. Mais preocupante, uma análise da firma independente Artificial Analysis indica que o melhor modelo do Google em produção, o Gemini 3.6 Flash, está atrás de ofertas da Anthropic, OpenAI, xAI, Meta e até de um laboratório chinês em métricas de inteligência bruta.

Apesar dos reveses, o Google não está fora do jogo. A empresa detém vantagens estruturais que nenhum concorrente nativo de IA possui: capacidade computacional com seus próprios chips, uma nuvem global e canais de distribuição massivos. A questão é se esses trunfos podem compensar uma aparente fraqueza na camada do modelo.

Quatro anos após seu primeiro "código vermelho" em IA, a DeepMind se vê novamente sob pressão para provar que consegue manter o ritmo. Desta vez, porém, terá de fazê-lo sem as duas figuras mais associadas à sua identidade científica e sob uma estrutura que a aproxima cada vez mais da máquina corporativa do Google.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune