O número de pessoas diagnosticadas com demência anualmente tem projeção de mais que dobrar até 2050, saltando de 11,4 milhões em 2023 para 24,7 milhões, segundo um estudo recente de pesquisadores australianos publicado na JAMA Neurology. Essa escalada representa um desafio global imenso, com implicações significativas para indivíduos, famílias, sistemas de saúde e economias em todo o mundo.

A pesquisa, que analisou dados de mais de 38 mil indivíduos em 18 países, aponta para uma incidência ligeiramente maior em mulheres (10,6 casos por mil pessoas) em comparação com homens (8,6 por mil). No entanto, a disparidade mais acentuada foi observada em relação à localização geográfica: países de baixa e média renda apresentaram 13,6 casos por mil pessoas, contra 8,3 em países de alta renda. Essa tendência, segundo os autores, é particularmente preocupante, pois essas regiões enfrentam um envelhecimento populacional acelerado e, simultaneamente, dispõem de recursos limitados para lidar com a doença.

O Cenário Global e os Fatores de Risco

O envelhecimento populacional é, sem dúvida, um dos principais motores do aumento projetado dos casos de demência. Condições como Alzheimer, que afetam a memória, o raciocínio e a capacidade de realizar atividades diárias, tornam-se mais prevalentes após os 65 anos. Em 2021, estima-se que 57 milhões de pessoas viviam com demência globalmente, tornando-a a sétima principal causa de morte. O impacto financeiro já é considerável, com um custo estimado em US$ 1,3 trilhão para as economias mundiais em 2019, segundo a Organização Mundial da Saúde. Um aumento exponencial de novos casos, como o previsto, intensificará essa pressão econômica.

A Urgência da Prevenção e o Papel da Pesquisa

Diante desse quadro, os pesquisadores enfatizam a necessidade de uma abordagem proativa. "Não podemos simplesmente esperar que as pessoas desenvolvam demência e, depois, responder", afirmou Henry Brodaty, co-diretor do Centre for Healthy Brain Ageing da University of New South Wales Sydney e coautor do estudo. Ele defende ações em todas as frentes, desde a redução de fatores de risco modificáveis e a identificação precoce de indivíduos em risco até a melhoria do diagnóstico, tratamento e cuidado. A pesquisa busca justamente munir a comunidade científica e os formuladores de políticas com dados que permitam direcionar esses esforços de forma mais eficaz.

Implicações para Sistemas de Saúde e Economias

As projeções de um "enorme aumento" na demanda por diagnósticos e cuidados de demência são especialmente alarmantes para países com infraestrutura de saúde limitada. "Sistemas de saúde precisam se preparar para esse aumento massivo na demanda diagnóstica e de cuidados, e isso é especialmente verdadeiro para esses países de baixa e média renda onde o crescimento será mais rápido", alertou Liron Sinvani, diretora de pesquisa e inovação do Northwell Institute for Healthy Aging. Ela ressalta que o cuidado com a demência exige um forte suporte de cuidadores e é oneroso, demandando o desenvolvimento de uma infraestrutura mais robusta e acessível.

Perguntas em Aberto e a Necessidade de Ação

Embora a pesquisa identifique claramente as populações mais vulneráveis e a magnitude do desafio, muitas questões permanecem em aberto. A natureza exata das causas que levam a uma incidência maior em mulheres e em países de baixa e média renda ainda requer investigação aprofundada. Além disso, a viabilidade e a eficácia de estratégias de prevenção em larga escala, especialmente em contextos de recursos limitados, precisam ser rigorosamente testadas e implementadas. A urgência apontada pelos pesquisadores sugere que a inação não é uma opção diante do que alguns já chamam de "epidemia em aceleração".

A pesquisa publicada na JAMA Neurology serve como um chamado urgente à ação, sublinhando a necessidade de investimentos em prevenção, diagnóstico e cuidados para mitigar o impacto crescente da demência globalmente. A disparidade de risco entre diferentes populações demanda atenção especial para garantir que as estratégias sejam equitativas e eficazes. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company