Cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo, o equivalente a quase um quarto da população global, ainda carecem de acesso regular à água potável. Anualmente, aproximadamente 800 mil mortes estão diretamente ligadas ao consumo de água insalubre, um gargalo que trava o desenvolvimento humano e econômico de nações inteiras. Embora a Organização das Nações Unidas tenha estabelecido o acesso universal à água segura como uma das metas fundamentais de desenvolvimento sustentável, a realidade política em países de baixa e média renda aponta para uma complexidade crescente no século XXI.

Historicamente, a literatura acadêmica sustentava que democracias seriam mais eficientes na entrega de bens públicos devido a mecanismos como eleições, transparência e liberdades civis. Contudo, uma nova pesquisa liderada pelo cientista político Evan Lieberman, do MIT, desafia essa premissa. Ao analisar dados de 96 países, o estudo indica que, embora democracias ainda superem regimes não democráticos na expansão da infraestrutura básica de água, elas não apresentam a mesma vantagem na garantia de segurança hídrica — ou seja, no fornecimento de água efetivamente livre de contaminantes nas residências.

O paradoxo da visibilidade política

O principal argumento levantado pelos pesquisadores é a visibilidade do bem público. Políticos, especialmente em sistemas democráticos, tendem a priorizar obras que podem ser exibidas ao eleitorado, como a instalação de tubulações ou a construção de estações de tratamento visíveis. Esse comportamento é impulsionado pelo desejo de conquistar votos e manter a popularidade através de cerimônias de inauguração, onde o cidadão pode literalmente ver o benefício chegar à sua comunidade.

Por outro lado, a qualidade da água é um atributo invisível. O combate a contaminantes químicos ou matéria fecal exige testes laboratoriais constantes, manutenção de infraestrutura oculta e políticas de prevenção de poluição que raramente rendem dividendos eleitorais imediatos. A leitura aqui é que, para o político médio, investir na purificação contínua da água é politicamente menos recompensador do que investir na expansão física da rede, criando um descompasso entre a necessidade pública e o incentivo eleitoral.

A falha dos mecanismos democráticos

O estudo, publicado na revista World Development e coautorado pela pesquisadora Naomi Tilles, utilizou dados do Programa Conjunto de Monitoramento da OMS e do UNICEF. Após rodarem cerca de 39 mil regressões estatísticas, os autores constataram que a associação histórica entre regime democrático e aumento na disponibilidade de infraestrutura hídrica é real, mas o "dividendo democrático" desaparece quando o assunto é a qualidade invisível da água. Na verdade, a dificuldade crônica das democracias em focar na segurança hídrica tem mantido a vulnerabilidade de populações inteiras ao longo das últimas décadas.

Os incentivos sob os sistemas atuais não estão alinhados para a promoção da segurança hídrica universal. Em muitas democracias jovens, a gestão pública ainda luta para consolidar serviços básicos, o que acaba por forçar os governantes a optarem por soluções de curto prazo. Quando o horizonte de tempo do político é limitado pelo calendário eleitoral, problemas que exigem monitoramento contínuo e técnico tendem a ser negligenciados em favor de projetos com impacto visual imediato.

Implicações para o desenvolvimento global

Essa dinâmica levanta questões sérias sobre a eficácia da governança eleitoral como ferramenta de desenvolvimento social em países emergentes. Se o sistema, por si só, não garante a entrega de bens essenciais que não são visíveis, a sociedade civil precisa encontrar formas de tornar a segurança hídrica um tema central no debate público. A conexão entre a contaminação da água e o aumento de doenças precisa ser traduzida em demandas eleitorais claras para que o custo político da negligência supere o custo financeiro do investimento.

Para o Brasil e outras nações em desenvolvimento, o desafio é institucional. A regulação do saneamento básico não pode depender apenas da vontade política de curto prazo, mas sim de metas técnicas de longo prazo que sejam blindadas dos ciclos eleitorais. A ausência de uma pressão pública organizada sobre a qualidade da água perpetua um ciclo onde a população aceita a disponibilidade em detrimento da segurança.

Perspectivas e o papel da sociedade civil e da tecnologia

O que permanece incerto é se a pressão internacional ou novas tecnologias de monitoramento em tempo real poderão inverter essa tendência. A transparência radical sobre a qualidade da água, tornando o invisível visível para a população, pode ser o caminho para alterar os incentivos dos governantes. Se o eleitor puder verificar a qualidade da água em seu smartphone através de sensores e dados abertos, o custo político da inércia governamental aumentará drasticamente.

O futuro da gestão hídrica dependerá da capacidade dos cidadãos de forçar governos a priorizarem resultados de saúde pública em vez de vitórias de marketing político. A pergunta que fica para as democracias é como estruturar o Estado para que ele responda às necessidades essenciais de longo prazo, mesmo quando estas não garantem fotos ou manchetes no dia da eleição.

A busca por água segura continua sendo um teste de maturidade para as instituições, exigindo que a sociedade eleve o nível da cobrança pública. Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT News