A deportação, sob a ótica do artigo "An Undocumented War: Inside Deportation’s Machinery of Violence", transcende a mera remoção de indivíduos de um território. É apresentada como uma guerra, um conflito americano intrinsecamente ligado a genocídio, supremacia branca e, crucialmente, a uma contagem de corpos. Essa métrica, familiar em conflitos militares convencionais como os do Vietnã, Iraque e Afeganistão, é aqui transposta para a política migratória, onde a vida dos deportados se torna uma baixa a ser contabilizada, um reflexo do "deles contra nós". A crítica se aprofunda ao equiparar essa "guerra" a outras campanhas americanas contra "ideias vagas", como terrorismo ou drogas, onde o inimigo não é um exército organizado, mas um conceito abstrato, permitindo a mobilização de recursos e violência sem a necessidade de um confronto direto. A questão das baixas americanas é abordada pela própria definição de quem é considerado americano, sugerindo que corpos deportados ainda carregam uma identidade americana, tornando suas perdas uma ferida autoinfligida.
A Raiz Intervencionista e a Criação de Crises
A análise traça as origens dessa "guerra de deportação" até as intervenções americanas na América Central. O apoio dos EUA a regimes militares em El Salvador, por exemplo, durante a guerra civil do país (1979-1992), é citado como um fator determinante. O treinamento de esquadrões da morte por Green Berets americanos, com currículos que incluíam tortura e execuções, resultou na formação de figuras como Ernesto Deras. Este, por sua vez, foi fundamental na estruturação da gangue MS-13. A subsequente deportação de membros da MS-13 de volta a El Salvador, em um país já fragilizado pela guerra civil fomentada pela própria intervenção americana, criou um ciclo vicioso de violência e instabilidade. A ascensão de Nayib Bukele à presidência salvadorenha, prometendo combater a violência das gangues, levou à massiva encarceramento de cidadãos, incluindo deportados dos EUA, evidenciando a complexa teia de consequências gerada pela política migratória e pelo intervencionismo histórico.
O Ciclo de Violência Pós-Deportação
As consequências da deportação são apresentadas como uma sentença de morte para muitos, ecoando pesquisas de Sarah Stillman e relatórios da Human Rights Watch. Estes estudos indicam que uma parcela significativa de deportados para El Salvador é assassinada, abusada ou sexualmente agredida por gangues, policiais ou ex-parceiros. O número de desaparecidos em El Salvador na última década supera o total de desaparecidos durante toda a guerra civil do país, um testemunho sombrio do impacto duradouro das políticas americanas. No México, a "guerra às drogas" e iniciativas como a Mérida Initiative, apoiadas pelos EUA, também alimentaram a violência e a instabilidade, resultando em centenas de milhares de desaparecidos e mortos, incluindo jornalistas. Organizações de apoio a deportados no México relatam que, especialmente mulheres, temem por suas vidas após serem enviadas de volta, tornando-se alvos fáceis para extorsão e sequestro, muitas vezes alimentando o próprio crime organizado que os EUA dizem combater.
Implicações e a Complicidade Americana
O artigo levanta questões incômodas sobre a real intenção dos Estados Unidos em combater o narcotráfico e os cartéis, quando suas próprias políticas de deportação parecem alimentar esses mercados ilegais, colocando indivíduos vulneráveis em situações de risco extremo. A pergunta que paira é se o fracasso dessas guerras é acidental ou intencional. A análise sugere uma possível complacência, ou até mesmo uma participação ativa, na perpetuação de um genocídio de classes e etnias específicas. A perda de vidas deportadas representa não apenas um "contagem de corpos" para os EUA, mas também uma perda incalculável de talentos, potencial econômico e, fundamentalmente, de membros integrais de famílias e da sociedade americana, cujos impactos financeiros e psicológicos sobre seus entes queridos, especialmente crianças, ainda não foram totalmente calculados.
O Espelho Fascista e o Futuro Incerto
Paralelos são traçados entre a trajetória atual dos Estados Unidos e a ascensão do fascismo na Alemanha, citando a exploração de divisões raciais, a retórica inflamada, a erosão da verdade e o abuso de poder governamental. O medo expresso é que o caminho atual possa levar a um fascismo em larga escala, um cenário que, para muitos, já se manifesta. A figura de Donald Trump é vista não como uma anomalia, mas como um produto da história americana, cujas políticas de deportação e retórica anti-imigração contribuíram para a contagem de corpos. A "máquina de violência" da deportação é desvendada como um reflexo da própria sociedade americana, construída a partir de suas crueldades e da recusa em desaparecer. A narrativa pessoal de Diego, um Totonac curandeiro deportado, ilustra a dualidade de navegar entre o tradicional e o moderno, e a complexidade de suas próprias motivações, incluindo o desejo de morte como forma de resistência à crueldade do sistema.
O artigo, extraído de "How to Look Away: On American Cruelty and the Refusal to Disappear" de Daniel Peña, não oferece conclusões fáceis, mas expõe a profunda crueldade e as consequências devastadoras das políticas de deportação americanas, convidando à reflexão sobre a responsabilidade e o custo humano de uma "guerra" travada contra os indocumentados.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





